terça-feira, 14 de novembro de 2017

Dia do Mar

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O Dia Nacional do Mar comemora-se no dia 16 de Novembro, data à qual o Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) não podia ficar indiferente, assinalando-o com várias iniciativas ao longo dia 18, sábado, das quais destacamos:
Pelas 16 horas, a apresentação do livro «Traços de Construção Naval em Madeira – Mastreação e Aparelho do Navio» de António Marques da Silva
e a Entrega dos Prémios do 4º Concurso de Modelismo Náutico do Museu Marítimo de Ílhavo.

 
O livro do Senhor Capitão Marques da Silva é constituído por seis partes, além da Introdução. São elas: A Ossada do Casco, O Arvoredo, Aparelhar um Navio, Ferragens do Navio, Conservação dos Navios de Madeira e O Velame, além da Conclusão e de um sucinto glossário.
Desenhos aproveitados de uma antiga «gaveta», com textos explicativos recentes. E sabemos quanto valem os textos tecnicistas deste Autor!
Os diversos capítulos são separados por belas e elucidativas fotos de Friedrich Baier. Prefácio do Almirante Tito Cerqueira.
Certamente, se aparecer pelo museu, no próximo sábado, sairá muito mais enriquecido. Verá!

Ílhavo, 14 de Novembro de 2017

Ana Maria Lopes
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sábado, 4 de novembro de 2017

Homens do Mar - José Luiz Nunes de Oliveira - 37

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José Luís de Oliveira. No Argus, 1950.
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Quem espera sempre alcança. Foi preciso um ror de anos (vinte e cinco), para que o quarto álbum registado e oferecido por Alan Villiers ao Museu, ao Capitão Adolfo, ao então imediato João Matias, e ao piloto José Luiz, da célebre Campanha do Argus, em 1950, me tivesse chegado às mãos.
Por interposta pessoa amiga, que conhecia a viúva, foram-lhe pedidas fotografias para este fim. Além de outras, que nos foram cedidas para digitalizar, eis que, passados uns tempos, o tal álbum nos chegou às mãos – que contentamento! Virei-o e revirei-o, mirei-o e remirei-o, digitalizando o que me apetecesse. Trata de pedir auxílio a amigos e entendidos, da época, para a identificação de outros figurantes.
Filho do Capitão Francisco de Oliveira (n. em 12.1.1888), teve três irmãos – Manuel, Francisco e João, todos com ocupações marítimas e uma irmã, Maria. Neste contexto familiar, o seu destino profissional só podia ser mesmo o mar.
José Luiz Nunes de Oliveira, de alcunha (Codim), nasceu em Ílhavo, a 17 de Novembro de 1923, na Rua de Cimo do Vila, nº 97.
Depois do casamento com Maria das Neves Simões Magano, de quem teve três filhos – Francisco José, Maria do Rosário e Alcides Luís – construiu casa na Rua do Casal, que passou a habitar.
Completou o Curso de Pilotagem em 1944/45, sendo portador da cédula marítima nº 112.210, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 2 de Setembro de 1946.
Propriamente antes de enveredar pela pesca do bacalhau, o que era mais usual em Ílhavo, entre 1946 e 49, foi oficial do paquete Lourenço Marques da Companhia Nacional de Navegação, no qual viajou para as ex-colónias, incluindo Índia e Timor.
O apelo do bacalhau foi mais forte e na safra de 1949, o Cap. Zé Negócio desencantou-o para ser seu imediato no lugre com motor, de madeira, Ana Primeiro. E assim foi. O Ana Primeiro, ex-Erika, construído na Suécia em 1918, foi adquirido pela Sociedade de Pesca Luso-Brasileira, Lda., com sede na Figueira da Foz, iniciando a actividade de pesca em 1935. O Ana Maria, embora também velhinho, era um lugre de uma elegância cativante, enquanto o Ana Primeiro não passava de se assemelhar a um desajeitado tamanco.
Lugre Ana Primeiro
Daí, deu o salto, de saco de lona às costas, para a Parceria Geral de Pescarias, empresa conceituada, onde trabalhou com muitos outros ilhavenses que por lá passaram.
Logo em 1950, exerceu o cargo de piloto do afamado lugre Argus, durante a tal viagem que serviu de base ao livro A Campanha do Argus de Alan Villiers, sendo imediato João Fernandes Matias e, no comando, o Capitão Adolfo Paião. Campanha famosa e que deu, além de muito mais, para bater belíssimas chapas, que nos dão imenso jeito, agora.
João Matias, José Luiz Codim e Manuel Laracha (motorista)
Divertiam-se, no carro do bacalhau, no convés do Argus

No ano de 1951, a oficialidade não se alterou. De 1952 a 55, José Luiz Nunes de Oliveira passou a imediato, tendo sido piloto, Manuel Paulo Pinto Nunes Guerra. Nos anos de 1953, 54 e 55, foi piloto, Francisco Teles Paião, sobrinho do Capitão.
Mantendo-se na Parceria Geral de Pescarias (PGP), surgiu a altura de mudar de navio, ocupando o cargo de capitão no lugre Hortense, entre 1956 e 64. Dos imediatos, apenas dois foram de Ílhavo – Benjamim dos Santos Marcela, de alcunha Benjamim Pardal, entre 59 e 60, e Júlio Pereira da Bela, Salsa, em 1964.
O lugre com motor, de madeira, Hortense fora construído para a PGP, por Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1930. Tendo feito a última campanha em 1964, foi oferecido pela empresa armadora à Organização Corporativa das Pescas, em 1968, para nele se instalar o Museu de Pesca Vasco Bensaúde, tendo acabado por ter ardido no Mar da Palha, em Dezembro de 1970. Sorte malvada!...
Hortense, Argus, e Gazela Primeiro, durante o Inverno
Chegou a altura de o nosso capitão passar a comandar o célebre Gazela Primeiro, nas campanhas de 1965 a 68 (inclusive). O Gazela Primeiro foi, talvez, o navio mais emblemático da Parceria, que ainda hoje navega sob pavilhão dos Estados Unidos da América, agora sob a tutela de um grupo de Amigos que muito o estima. Dos imediatos, à época, foi impossível encontrar dados para a sua identificação.
E toca de voltar ao «seu» Argus, desta vez, nas safras de 1969 e de 70, sem que os imediatos fossem de Ílhavo. Quando algo de diferente acontece a bordo, bate-se uma chapa para a posteridade. Foi o que aconteceu em 1969, quando pescaram, o que não é vulgar, um razoável peixe-lua. 
Com o peixe-lua, no Argus, em 1969
O número de navios na Parceria ia diminuindo e a anacrónica pesca à linha, que tem sido mote de muita e mítica conversa, dava indícios do seu «requiem».
O Capitão José Luiz fazia as últimas viagens para a empresa, que mais de duas dezenas de anos servira. – desta vez, nas campanhas de 1971 e 72 – como imediato do navio-motor Neptuno, sob o comando de João Fernandes Matias, o João do Creoula, como era conhecido entre os companheiros, pelo facto de ter havido em Ílhavo, mais capitães com o mesmo nome.
Este navio, já, mais moderno, fora construído nos malogrados e desaparecidos Estaleiros de S. Jacinto, à data de 1958, para a empresa em questão.
Marques da Silva, outro famoso oficial da Parceria, em conversa, recordou com saudade, o convívio que tinham tido, desde 1954, como imediatos e mais tarde, como capitães do Creoula e do Argus, navios famosos da mesma empresa. Foram vinte anos de amizade e são companheirismo!
Em 1973, mudou de rumo o capitão José Luiz e enveredou pela marinha de comércio, ao serviço da empresa Econave, como imediato do Eco-Vouga. Depois de passar pelo graneleiro Rio Zaire, assentou praça em 1974, na Soponata, onde se manteve até à aposentação, em 1980.
Tendo falecido em Janeiro de 2007, com 83 anos, ainda teve uns bons aninhos para saborear uma merecida reforma. Nesse tempo, pessoa muito pacata, muito caseira e muito habilidosa, dedicou-se com carinho, afinco e entusiasmo à agricultura. Amante da passarada, a que dedicava muito do seu tempo livre, tinha uma especial preferência por canários e pintassilgos. E assim se passou a vida deste prezado ilhavense, homem do mar.
Fotos – Gentilmente cedidas pela família
Ílhavo, 4 de Novembro de 2017
Ana Maria Lopes
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sábado, 21 de outubro de 2017

Curiosidade

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Qual não foi o meu espanto quando, hoje, o carteiro me deixou uma carta manuscrita, à moda antiga, timbrada com um selo representativo do Kitesurf!...
De quem? Qual o remetente?
De António Malaquias, distinto médico, morador em Viseu.
O que me quereria?
Manifestando que lia sempre com muito gosto os meus escritos em O Ilhavense, o último, dedicado a Samuel Corujo, despertou-lhe um particular interesse, interrogando-se: – Teria sido o Anfitrite 1º o navio de que seu avô – Manuel Nunes da Graça – caíra, desaparecendo no mar?
Não, não era, mas a resposta enviar-lha-ei pelo mesmo meio que utilizou.
Do navio Anfitrite e da morte de seu avô, de que ele fala, também tive conhecimento através da revista «A Ilustração Portugueza», de Dezembro de 1912. Mas a curiosidade e a gentileza não ficam por aqui. Pede-me o favor de aceitar uma foto de época, a bordo do lugre Novos Mares, em 14.4.1940, de que o meu avô tinha sido comandante – referia ele. Verdade!...E fora!...

A bordo do Novos Mares. Abril de 1940

Na dita foto, que aproveito para mostrar, a pessoa da esquerda, de fato claro, era o pescador/escalador ilhavense António Ferreira de Oliveira, o António Frade, n. em 1911, que fez duas viagens, 1936 e 37, no lugre Silvina e que andou de 1938 a 41, no lugre-motor Novos Mares, sob o comando do meu avô, Manuel Simões da Barbeira. À direita, de fato escuro, seria o seu saudoso Pai, Dr. José dos Santos Malaquias, também formado em medicina, que falecera, vítima de febre tifóide, em 28.12.1940. À época, exercia o cargo de subdelegado de saúde em Vagos, para onde se transferira.
Mais abaixo, seria, segundo sua informação, o seu tio Luiz, que fora o seu segundo pai, a quem tanto devia. Como o mundo é pequeno e o nosso Ílhavo também! Pequeno, na sua grandeza.
Ao Sr. Dr. António Malaquias, agradeço a gentileza das suas palavras e a oferta desta pequena fotografia que tanto prazer me deu!... Digitalizada, acompanhada deste singelo escrito, talvez lhe volte às mãos, se o nosso jornal O Ilhavense tiver espaço para estas simples palavras e encontro de gerações.
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Ílhavo, 20 de Outubro de 2017
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Homens do Mar - Samuel Corujo - 36

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Samuel Lopes Corujo
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Vizinho de rua, Ferreira Gordo, nº 20, há tantos, tantos anos, homem simples, bom, simpático, dado, afável – Samuel Lopes Corujo –, desta vez chegou o momento de lhe rememorar as histórias marítimas. Já o tinha lembrado como o «Sr. Samuel das garrafas» – explicarei porquê – mas, desta vez, é o motorista, o homem do mar que vou recordar.
Samuel Lopes Corujo, nado e criado em Ílhavo (1922-2005), filho de Samuel Francisco Corujo e de Emília Augusta Lopes Corujo, casou com Maria Victorina S. Marques em Agosto de 1948. Deste casamento, nasceram três filhos: Emília Augusta, António Samuel e José Manuel.
Era portador da cédula marítima nº22226, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 1937.
Apenas com 15 anos de idade (em 1937) fez a sua viagem de baptismo como ajudante de maquinista no lugre com motor Anfitrite 1º (1927-77), de quatro mastros, que se dedicava apenas ao comércio e no qual viajou muitas vezes para as costas da América e de África.
Lugre Anfitrite . Col. de LMC
Seguiu-se o lugre Patriotismo, também do comércio, em que naufragou, ao largo de Peniche, em 17 de Fevereiro de 1941, devido a um ciclone que assolou a costa portuguesa. Parece que o navio foi abandonado por falta de condições de navegabilidade. Transportava carvão do Porto para Lisboa, quando naufragou, tendo morrido o contramestre, que, curiosamente, era o único tripulante que não era de Ílhavo.
O lugre Patriotismo, em Peniche, em 1941.
O Patriotismo, lugre de madeira, construído para a Parceria Marítima Douro, Lda., por José Dias dos Santos Borda Júnior, em Fão, em 1924, destinou-se à pesca do bacalhau, tendo feito a última campanha em 1939 e tendo passado para o comércio em 1940. Navegou só à vela até 1934, tendo recebido motor auxiliar em 1935.
Em 1949, Samuel Corujo, 8 anos depois, passou, definitivamente, a motorista/maquinista de arrastões da pesca do bacalhau, onde passou por algumas peripécias, sofrimentos e tragédias. Que mais labutas lhe reservaria a vida de mar?
Depois de, em 1949, ter ido buscar o arrastão António Pascoal, à Holanda, onde fora construído para a empresa Pascoal & Filhos, sediada na Gafanha da Nazaré, entre 1949 e 1952 (inclusive), exerceu o cargo de 3º motorista nesse mesmo arrastão, tendo-o estreado, sob o comando do capitão ilhavense Manuel Pereira da Bela, com duas viagens nos dois primeiros anos e uma, nos dois últimos. Nada de anormal, segundo creio, a bordo.
Em 1953, Samuel Corujo numa nova emposta, muda de arrastão e vai ao mar no Santa Mafalda.
Era um arrastão lateral construído em 1948, para a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), pelo estaleiro Odero Terni Orlando, em Livorno, Itália.
Foi para ficar por 14 anos, equivalentes a 23 campanhas, pois os arrastões nem sempre faziam duas viagens por ano e nem sempre a tripulação se mantinha. A última viagem que não chegou a ser realizada, acabou com o naufrágio do arrastão. Durante esta porção de tempo, Samuel Corujo conheceu os capitães António Trindade da Silva Paião (1953, 54 e 55), José de Oliveira Rocha, (de 1956 a 65), António Trindade da Silva Paião, (2ª viagem de 1962) e Asdrúbal José Sacramento Teiga, todos de Ílhavo.
Alguns acontecimentos aziagos fustigaram a carreira marítima do nosso amigo – o primeiro, o esmagamento de dois dos dedos da mão direita, em 1959, num acidente de trabalho, a bordo, e o outro, o próprio naufrágio insólito do navio, a que voltarei.
Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do arrastão Santa Mafalda, enquanto 3º motorista, que lhe roubara dois dedos da mão direita. Os dois dedos que lhe sobraram intactos (polegar e indicador) ficaram com a força e ligeireza de um perfeito alicate. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eannes, em Nos Mares do Fim do Mundo, de que me transcrevo uns excertos:
Alô! Alô! O «Santa Mafalda» chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...
Eu estava no «Bissaia Barreto» (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do «Mafalda» tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho!
Era preciso intervir e quanto antes.
E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela «fonia» mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao «Mafalda»? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: varas apocalípticas cruzavam o «Bissaia» em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
(…) Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
Era desesperante.
O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o «Santa Mafalda» para terra.
Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do «Mafalda».
Valeu a pena, valeu a pena!
Quanto ao naufrágio do Santa Mafalda, o jornal O Ilhavense de 10/2/66 refere-se-lhe:
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À saída da barra de Lisboa, no dia 21 de Janeiro, pelas 11 h e 40, em frente a S. Julião da Barra, numa zona da barra onde o mar obriga às maiores cautelas, pela sua estreiteza, e por ser semeada de rochedos e bancos de areia, ocorreu mais um naufrágio, cujas consequências, entretanto, felizmente, não foram além dos elevados prejuízos materiais.
O mar encapelado, devido ao vento forte que soprava do quadrante sul, tornava perigosa a navegação. No entanto, os navios da frota bacalhoeira do arrasto, como estava previsto, suspendiam e aprestavam-se para seguir, rumo aos bancos de pesca da Terra Nova e Gronelândia, a fim de iniciarem mais uma campanha. Da dezena e meia, destinados a tão espinhosa faina, três iam já de abalada, quando o sinistro foi assinalado.
As águas revoltas da baixa-mar transpunham, espectacularmente, a muralha da estrada marginal. A neblina envolvia o espaço, dando ao Tejo um aspecto sombrio. Manhã de pura invernia. Percorrendo o estreito corredor da barra Norte, de quilómetro e meio de largura, entre o Forte de S. Julião e o Farol do Bugio, deslizava, sofrendo os impulsos da agitação das águas, o arrastão Santa Mafalda, da praça de Aveiro, da EPA.
O Santa Mafalda comandado pelo capitão Asdrúbal Teiga Capote, de Ílhavo, passava em frente de S. Julião, navegando a velocidade reduzida. Batido por rajadas de vento violento, sofre uma avaria de leme, cujo sistema eléctrico leva o navio trancado a estibordo.
O navio sem governo permaneceu à deriva, ao sabor do vento sudoeste e da corrente e foi impelido para perto da margem direita, até que um enorme rochedo localizado a cerca de trezentos metros da Fortaleza, entre as pedras da Torre e de Carcavelos, conhecido por Pedra da Laje, e frente à piscina, o imobilizou e lhe terá produzido um enorme rombo no costado.
Entretanto, não obstante a situação não se afigurar dramática, dada a curta distância que separava o navio da margem, três homens da tripulação do Santa Mafalda tomados de pânico, muniram-se de cintos de salvação e lançaram-se ao mar, vindo a ser recolhidos, com as naturais dificuldades, por uma lancha do vapor dos Pilotos.
Foi, assim, através daquela lancha que continuou a prestar valiosa colaboração que os náufragos foram recolhidos, após se ter conseguido estabelecer um género de cabo de vaivém com o vapor dos Pilotos, que se posicionou a barlavento, e muito próximo do Santa Mafalda. E nestas andanças, que não teriam sido fáceis, apesar da proximidade de terra, se salvou, como os restantes tripulantes, o nosso homem do mar Samuel Corujo.
O mar, após dez dias de fúria violenta, partiu em duas partes o arrastão Santa Mafalda, e por ali acabara por ser desmantelado.
Santa Mafalda encalhado. De Navios à vista
Neste caso, a mudança de navio era mesmo obrigatória e, a partir de 1967, Samuel Corujo, com novo enxoval de bordo, passou para o arrastão Santo André, até 1975, perfazendo 13 campanhas.
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A bordo, em St. John’s, nos anos 70
Este arrastão lateral nasceu em 1948, na Holanda, por encomenda da Empresa de Pesca de Aveiro e dentre os capitães que o comandaram, neste período, foram de Ílhavo, o Capitão Nordeste (1967 a 70), António Trindade G. Paião (1971, 72 e 73, 1ª viagem), e Capitão Ernesto Pinhal (1975).
Arrastão Santo André, em plena pesca
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Em 1976, uma maleita do coração abanou o peito de Samuel Corujo, não mais tendo embarcado. Em 1982, aposentou-se, após uns anos de serviço em terra, na empresa a que pertencia o navio.
Quando visitou o arrastão Santo André como navio-museu, com a Família, emocionou-se ao reconhecer os espaços por onde trabalhou e se movimentou, incluindo o seu próprio camarote. Havia vestígios da sua existência naquele navio… Hoje, como todos sabemos, constitui um pólo do Museu Marítimo de Ílhavo, ancorado junto ao Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré. O armador do navio e a Câmara Municipal de Ílhavo decidiram transformar o velho Santo André em navio-museu, tendo em Agosto de 2001, iniciado um novo ciclo da sua vida: mostrar aos presentes e vindouros como foram as pescarias do arrasto do bacalhau e honrar a memória de todos os seus tripulantes durante meio século de actividade.
Evoluindo aos poucos, na longa carreira, profissionalmente, acabou por chegar a 1º maquinista nas últimas seis campanhas do Santo André, pela boa prestação de serviços e suas qualidades humanas.

E agora, que fazer durante a aposentação, que ainda foi longa? Mesmo depois de alguns trágicos incidentes, as saudades oceânicas atacavam o Sr. Samuel. Prolongou o seu gosto pelo mar e navios, depois de ter aprendido com um familiar mais velho, Capitão Weber Bela, a engarrafá-los artisticamente em garrafas de vidro. Arte própria de marinheiros habilidosos! Motoristas e maquinistas, normalmente hábeis, atiravam-se a esta actividade artesanal, em dias de brisa! Convinha que não fossem muitos!…
Já que moradores na mesma rua, visitávamo-nos com frequência. Ou o ex-maquinista/artista me vinha entregar os seus trabalhos encomendados, o que me dava sempre muita satisfação ou eu visitava-o para observar os «principais passos» do «engarrafamento de mar e veleiros». Entretanto ouvia as suas histórias marítimas, alegrias ou tristezas vividas ao sabor das vagas, durante perto de quarenta anos. A lista de encomendas de veleiros em garrafas era enorme, mas haveria muito possivelmente maneira de a «furar». A falta de sono fazia o nosso homem do mar, em terra, acordar antes do alvorecer e logo se agarrava ao passatempo preferido com muita paciência e minúcia. Os eleitos? Seriam o Gazela Primeiro, com ou sem os minudentes palheiros, o Creoula, o Argus, o Cruz de Malta, o Novos Mares e muitos mais. Eu, claro, além de outros que navegam na casa de praia, mandei fazer o Ana Maria. O segredo está nos mastros… – confessava-me ele, exemplificando.
O segredo está nos mastros…
O nosso motorista serviu alguns navios que, para o bem e para o mal, ficaram na história dos bacalhoeiros portugueses – lugre Patriotismo e arrastão Santa Mafalda pelos naufrágios inéditos sofridos e arrastão Santo André, pela transformação em navio-museu.
Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura marítima e com os «seus barquinhos», lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo.
No feriado municipal de Ílhavo de 2006, foi homenageado, a título póstumo, pela CMI, com a medalha de mérito cultural de prata.
Ílhavo, 6 de Outubro de 2017
Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Memórias da romaria da Senhora da Saúde

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Os festejos em honra da Nossa Senhora da Saúde, iniciados em 1837, vieram substituir a primitiva Festa de S. Pedro, em Ílhavo (que se tornou na Festa das Companhas), passando a ter data fixa, no último domingo do mês de Setembro.
Competia em popularidade com o S. Paio ou com o S. Tomé, na grandiosidade da animação dos festejos lagunares, no corrupio de gentes e na algazarra. Do norte do Bico ao sul da Mota, a Costa-Nova engalanava-se com o estendal de moliceiros.
Agora, vem aí a romaria…Só que nem dá p’ra te comprar uma flor…
A minha mais antiga recordação deste arraial é uma fotografia, no terraço do meu palheiro, à época, com dois anos e um grande laçarote na cabeça. A armação da festa comprova a data – fins de Setembro de 1946. Vivia no coração da romaria.
Outra memória, bastante mais forte e de que ainda hoje me recordo vivamente, foi a minha integração na procissão, trajada de anjinho – a primeira e a única vez.
Cá perdura o boneco tirado à la minuta no meu baú, como mandava a tradição.
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O anjinho assustado, de sete anos
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Só que foi uma procissão complicada e agitada, porque durante o seu trajecto, deflagrou um forte incêndio na, à época, Pensão Pardal, na esquina norte da Estrada do Banho.
Alterado o percurso, o susto apoderou-se de todos. As chamas lambiam as outras casas e todos temiam que se propagassem às residências vizinhas. Foi um alvoroço.
Lá vieram os Bombeiros de Ílhavo acudir ao sinistro que poderia ter alcançado proporções gigantescas, dado que as casas da proximidade eram palheiros de madeira ressequida.
Na ausência de data na fotografia, lá fiz algumas diligências para situar a ocorrência no ano certo – foi no domingo da Festa de 1951 (in O Ilhavense de 10 de Outubro de 1951).
Naquela idade os meus avós faziam-me as vontadinhas todas e eu lá tinha os meus rituais.
A minha primeira compra era um «chapelinho de papel» muito frágil e gracioso, que habitualmente estava à venda numa tenda, que montava arraial em frente à Vivenda Quinhas, hoje de Jorge Picado.
Quando chegavam à minha porta, a ti Adelaide Ronca com as flores de papel com quadra popular e ventarolas, e a ti Caçoa, com o baú das doçarias tradicionais, entre as quais sobressaíam os melosos e açucarados suspiros e os bolinhos brancos, logo as boas festeiras tinham em mim uma das primeiras freguesas; uma mão para erguer o moinho à procura do vento, até que zunisse, e logo a outra atascada com doçarias para secar a água que me crescia na boca, só de vê-las.
Seguia-se a visita à Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio das cadeiras voadoras ou da casa dos espelhos ou do comboio fantasma, itens do arraial que se iam visitando, vez à vez, até que esgotados  na segunda-feira do fim de festa.
Incluída no programa das visitas, não podia faltar uma ida  às barracas de loiça de Barcelos, para  «puxar» de uma argola presa a um fio, que erguia o número correspondente ao prémio, que calhava em sorte.
Assim ia gozando a festa naquela idade da criancice e inocência.
Os restantes registos fotográficos são bastante mais tardios, de 1960, ano em que as minhas amigas e eu, já espigadotas, no esplendor da nossa juventude, combinámos viver a Senhora da Saúde, à moda antiga. Tinha 16 anos.
Os primeiros sinais da romaria eram dados pela chegada e montagem da armação. Depois, a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.
Experimentámos de tudo um pouco. Depois de um belo passeio de Vouga, estava na hora de começar a reinar: andámos de carrossel, de carrinhos eléctricos, de cadeirinhas voadoras, integrámo-nos nas danças sobre a proa dos moliceiros, subimos aos vistosos e animados coretos, tirámos a sina numa boneca de tecido peludo preto, com uma grande cabeçorra, normalmente em frente do palheiro dos Senhores Moura, hoje da Rosa Maria Moura, apreçámos toda a quinquilharia possível, desde os toscos brinquedos de lata e madeira aos ferros forjados mais elaborados. E o café de apito?
Assistimos respeitosamente ao desfile da procissão, apreciámos o fogo-de-artifício, assustando, conforme podíamos e sabíamos os forasteiros, especados, de olhos pregados no céu.
Foi assim a nossa festa setembrina de 1960, em homenagem à Senhora da Saúde, em que se concentrava grande número de devotos.
As participantes na folia eram Maria Manuela Vilão, Rosa Maria Moura, Eneida Viana e eu.
Hoje, no entanto, apenas com os festejos religiosos, fogo-de-artifício, e umas doçarias festivas, ainda se vai passar à Costa-Nova a Senhora da Saúde. Nem gostamos, sequer, de ver a casa fechada. Tradição… É a que temos. É para respeitar, tentar transmitir…e, se possível, melhorar.
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Debruçados no coreto
 
Sobre as belas proas de moliceiros
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A «ler a sina»
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No «carroussel»
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 21 de Setembro de 2017
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Ana Maria Lopes

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Associação Memória e Património dos Terre Neuvas visita o Museu Marítimo de Ílhavo

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Repetindo a visita que fizera ao Museu Marítimo de Ílhavo, em Março de 2016, esteve, hoje, de novo, presente, no MMI, uma representação da Associação «Mémoire et Patrimoine des Terre Neuvas», uma colectividade sediada em St. Malo, França, que visa preservar a memória e património da pesca do bacalhau na Terra Nova.
O grupo visitante
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Motivo?????????Jean Baptiste Georgelin, no ano de 1959, um jovem pescador francês, tripulante do arrastão Colonel Pleven, acabou por cair ao mar, em pleno Atlântico Norte, em águas geladas de difícil sobrevivência, sem que ninguém o tivesse visto.
Só mais tarde, a restante tripulação terá dado pela sua falta e o aviso ecoara mais tardiamente. O código de emergência foi escutado a bordo do arrastão português Águas Santas, cujo capitão era, na primeira viagem de 1959, o ilhavense Manuel Lourenço Catarino, nascido em Fevereiro de 1900.
O pescador francês não esqueceu os tripulantes portugueses, que, indo ao seu encontro, num bote, lhe salvaram a vida e tinha uma vontade férrea de os vir a conhecer.
Com um deles ainda vivo, natural de S. Jacinto, aqui ao lado, Manuel Joaquim Bola Vieira, visitou-o, hoje de manhã, na sua terra, para lhe transmitir um sentido agradecimento – o seu renascer. O outro, já falecido, natural da Murtosa, Abílio da Silva Rodrigues Brandão, foi representado pelo seu irmão, que também esteve presente.
No MMI, o nosso reencontro com os elementos da referida associação e com Jean Pierre Andrieux e sua esposa, foi extremamente afectuoso, constando de uma visita guiada em francês, para uma compreensão plena, à Sala Faina Maior e Aquário dos Bacalhaus.
Conhecer o sobrevivente, Jean Georgelin, depois de tais chocantes peripécias em bom estado de saúde e muito bem conservado nos seus 75 anos, foi emotivo e comovente.
Jean Georgelin e eu
Alguns exemplares do livro Portugal no Mar e Tributo a Capitães de Ílhavo foram oferecidos a elementos da comitiva e ao pescador «sobrevivente», tendo sido feita uma identificação visual do capitão, à época, do Águas Santas, e dos pescadores salvadores, no livro Portugal no Mar.
 
Por idêntica gentileza, foram-nos oferecidas placas simbólicas do inédito salvamento. Uma tarde agradável.
Ílhavo, 7 de Setembro de 2017
Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Amizades geradas na Costa Nova

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Com este tempo outoniço, aproveitá-lo mesmo para limpezas de roupas e papelada. Nestas andanças veio-me à mão um texto de Isabel Maria C. Madail, que arengou, no final de uma apresentação no CVCN, minha e de Etelvina Almeida, Uma viagem p´la ria, em Agosto de 2014.
No final, a Isabel pediu a palavra… Que quereria ela dizer? Nada como dar-lha, para saber:
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Esplanada e embarcações lagunares, na Costa Nova
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Não posso deixar passar este momento sem intervir, prometendo ser breve
A Ana Maria e eu vivemos muito na Costa Nova e a Costa Nova, fomos amigas e às vezes inimigas (ela era endiabrada) toda a vida.
Os nossos familiares vinham para a Costa por Maio, aqui permanecendo até finais de Outubro. Se houvesse obras de vulto a fazer, viriam mais cedo, claro, e a estadia, então, prolongava-se. Daí o tratarmos por Tu esta terra onde nos sentíamos e sentimos bem, onde conhecíamos toda a gente, para onde fugimos para tentar curar as agruras que a vida também nos trouxe, continuando, até hoje, a fazê-lo.
Aqui, a Ana Maria era a «Aninhas» e eu, a «Inzabelinha».
Contudo, a Ana Maria, muito atrevida, decidiu nascer antes de mim, uns escassos três meses, o que lhe deu a vantagem de entrar na Escola um ano antes de mim, muito importante, e eu tive muita pena.
Como ela bem disse, andou cá na Escola na 1ª e 3ª classes, quando da construção da casa onde hoje vive.
Eu que nunca me conformei por ter nascido depois dela, entrei na Escola um ano mais tarde e, assim frequentei a 3ª classe na Costa Nova, enquanto a Ana Maria a tinha frequentado no ano anterior, fazendo exame da 3ª na Gafanha da Encarnação; para isso a travessou a ria, de barca, com a Professora e os colegas, tudo cheio de pompa e circunstância.
Contudo, só por causa do meu atraso em chegar a este mundo, quando, no ano seguinte, pensava que ia fazer exame à Gafanha com o resto da turma, fiquei desiludida: Foi o 1º ano em quês se fizeram exames na Costa – um ponto a favor da Ana Maria que foi de barca.
O centro do «mundo» – a Costa Nova
Claro que eu, ao longo dos tempos atravessei a ria com enterros, que eram também fluviais: o caixão e acompanhamento iam na barca, para a outra margem, mas, não sendo a viagem privativa, iam também outras pessoas, cujo único meio de transporte era aquele.
Mas, voltando à Ana Maria que na Costa Nova era Aninhas: um dia estávamos ao colo das nossas Mães e, sem quê nem para porquê, eis que ela se lembra de me dar uma valente bofetada
Quando fazia qualquer asneirita, como eu ou qualquer outra criança, o Capitão Pisco, seu Avô, de saudosa memória, dizia-lhe que eu é que ia passar a ser a neta  dele e aí aparecia ela, pior que estragada, como se eu tivesse culpa.
Mas éramos muito evoluídas: o Avô pagava uma barraca na Biarritz para nós nos vestirmos após o banho da ria. Muito fino… teríamos 7 /8 anos
Além de tudo, foi a Costa Nova que mais nos ligou: fazíamos campeonatos do jogo do prego, de ringue… Temos sido próximas desde sempre. Matriculámo-nos no mesmo curso, eu um ano depois, claro, por causa dos tais três meses…
A Ana Maria era mais azougada do que eu no que respeita ao mar: muito nadadora, muito despachada…
Perdoem o tempo que vos roubei, para vos contar como se formavam amizades nestes areais.
A nossa Costa, a Costa da nossa infância, onde passávamos meio ano, deixou-nos marcas profundas, que fazem com que, embora tendo visto muito lugares bonitos, continuemos apaixonadas por ela. E a Ana Maria fá-lo de forma mais notória, mais interveniente, e muito bem. Por isso a felicito!
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Pela beira da ria…1960
Não lhe posso perdoar que se tenha adiantado a mim, que nasci apenas três meses mais tarde, o que lhe dava um ar muito importante, já que andou sempre mais adiantada do que eu.
Isabel Maria C. Madaíl
CVCN, Agosto de 2014
AML
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