domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homens do Mar - João Pereira Ramalheira Júnior - 42

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João Pereira Ramalheira Júnior

Depois de uma conversa amena e agradável com o amigo Capitão Vitorino Ramalheira, na sua encantadora e aconchegada casa de Vagos, sobre o Rio Boco, mais uma vez me fez sentir que gostaria que eu reunisse o possível currículo marítimo relativo a seu avô, João Pereira Ramalheira Júnior. Foto introdutória, há-a, belíssima, cheia de charme. E fontes seguras escritas pelo próprio pulso, que se podem utilizar com confiança, também. Então, vamos a isso, mesmo com algumas dúvidas que sempre perdurarão, quando se penetra no tempo.
João Pereira Ramalheira Júnior, filho de João Pereira Ramalheira Sénior e de Rosália Joaquina de Jesus, nasceu em Ílhavo no dia 23 de Junho de 1874, pelas 11 horas da noite – declara ele. Do casamento com Victorina da Graça Rocha a 27 de Novembro de 1897, nasceram doze filhos, de que faleceram cinco, ainda crianças. A mortalidade infantil era muito elevada, ao tempo. Restaram – João, Aníbal, Judith, Ângelo, Paulo, Maria Rozália e Elmano.
Este guerreiro marítimo matriculou-se na escola de pilotagem da Capitania do Porto do Porto, com 17 anos, em 1891, com três companheiros do norte e dois de Vila do Conde. Apresentados a exame em Outubro, saíram aprovados. Depois de uma visita a Ílhavo em Janeiro de 1893, seguiu para Lisboa a bordo da barca Maria Luiza, referindo nos seus escritos: – Saí em Fevereiro para África (Loanda), ocupando no citado navio o lugar de moço de governo, fazendo as minhas derrotas à prôa, nas horas do meu descanço.
Regressou a Lisboa em Setembro deste mesmo ano de 1893, tendo conseguido entrar na aula do Sr. Morais como ouvinte. Inscrito em exame, ficou aprovado com a classificação de 12 valores. De surpresa, apareceu em Ílhavo, já piloto, e a 10 de Novembro foi para bordo da chalupa Baccarat, em Viana do Castelo, como marinheiro, sendo mestre o seu querido pai. Já que o navio não tinha contramestre e a tripulação assim o entendeu, foi designado como tal, para fazer a viagem de Viana a Lisboa e vice-versa.
Tendo chegado e desembarcado a tripulação, para poupar o pai, ficou no navio só com o moço a meter carga e aprestos para a futura viagem que seria sob o comando de um dos seus tios.
É possível que a chalupa Baccarat fosse a citada pelo investigador esposendense José Eduardo de Sousa Felgueiras, no livro Sete Séculos no Mar (XIV a XX), Vol. III, p. 147. O referido navio foi construído em 1891 nos estaleiros de Fão por José Dias dos Santos Borda Júnior, para José Fernandes Pereira Júnior, da praça de Aveiro. Não foi arqueada na data da finalização da construção, tendo ido à água em 25 de Agosto de 1891. A tripulação foi matriculada em 23 de Setembro de 1891, sendo todos os elementos de Ílhavo.
Em Janeiro de 1894, em Viana, fui lembrado para capitão da chalupa D. Rosa e também para piloto do hiate Manoel Espregueira, mas como as soldadas não me convinham, voltei para Ílhavo – relembra.
Acontece que, em 1894, o seu cunhado João Pereira Ramalheira (o Pisco) passaria a ser capitão, nesse mesmo ano do patacho Neptuno da Parceria Geral de Pescarias (PGP), em viagem para os Bancos da Terra Nova e, ele, com vinte anos apenas, teria preferência para o lugar de piloto, a que voltou em 1897 e 1899. E assim foi.
Nas safras de 1895 e 96, passou, como piloto, pelo lugre Labrador.
Com 22 anos, fez parte do famoso grupo inicial Chio-Pó-Pó de 1897, que saiu à rua a propósito duma charge político-local, com Dr. Samuel Maia, Marcos Ferreira Pinto Basto, João Francisco da Rocha, Eduardo Craveiro (Pai), José Craveiro Júnior, Diniz Gomes, Manuel Sacramento, Manuel Teles Júnior, Abel Regala, Samuel Ramos, José Mendonça e Adriano Neto Júnior.
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João Pereira Ramalheira é o que está sentado
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Na primeira viagem após o casamento, na safra de 1898, embarcou no Porto, na barca Quitéria, como piloto e depois como piloto e contramestre, por negligência deste, tendo saído para o Rio de Janeiro, em Março, e regressado da Estado de Santa Cruz – Brasil – em Fevereiro de 1899.
No ano de 1900, embarcou de piloto no lugre Argus, aquele velhinho lugre de madeira, construído em Dundee, Inglaterra, em 1873.

Antigo Argus. Foto do Cap. Almeida, 1934
 
Quase definitivamente, ascendeu ao cargo de capitão, nos anos de 1901 e 02, da escuna Hortense, a que já não voltou.
Em 1903 e 1904, embarcou no lugre Gamo, em 1903 de piloto e em 04 de capitão, a que terá voltado nos anos de 1909 a 1912 (inclusive). Para os mais interessados, que lugre Gamo teria sido este?
Um primeiro lugre-patacho Gamo construído em Inglaterra, no estaleiro de Ed. Tayport, tendo sido dado por concluído durante o mês de Março de 1874. Foi inicialmente baptizado com o nome de Rena, tendo sido matriculado na praça de Dundee.
Colocado à venda em 1885, foi comprado pela firma Bensaúde & Cª., e registado nos Açores. Em 1891, com a transferência desta empresa para Lisboa, o navio passou, desde então, a navegar registado em Lisboa, mas, à época, sob propriedade da recém-formada Parceria Geral de Pescarias.
No registo de 1899 o navio já se apresentava armado em lugre. Todavia, poderá aí haver alguma incorrecção, com base em foto da Ilustração Portuguesa, de 1907, onde o navio foi retratado com aparelho de lugre-patacho. No entanto, é bem provável que, por facilidade de operação vélica, o navio tenha, sido armado em lugre, durante o período entre 1909 e 1913. Depois de ter ficado em terra, na Azinheira no ano de 1905, refere o próprio que exerceu o cargo de capitão no hiate Razoilo, nos anos de 1906 e 07.
Aqui, é de parar e respirar fundo. Temos pano para mangas. Houve, de facto, pelo menos, dois hiates Razoilo – constata-se.
O primeiro, referido na p. 102 do já citado livro do investigador esposendense Sousa Felgueiras, Razoulo 1º – (Razoilo), hiate, foi construído nos estaleiros de Esposende em 1859/60, por António dos Santos Garcia, para José Razoulo, de Ílhavo. Matriculou a sua tripulação de sete elementos na Delegação em Esposende, em Junho de 1860, sendo o mestre José Razoulo, de 40 anos e o contramestre José Simões Ré (?). Toda a tripulação era de Ílhavo, à excepção do «moço de bordo», que era de Viana.
Em contrapartida, o hiate Razoilo de que aveirenses e ílhavos falam, que, de Aveiro, juntamente com o Náutico, foi um dos primeiros a retomar a Grande Pesca foi construído (atesta-o a tradição oral), em 1899/1900, num pequeno estaleiro, na Malhada (Ílhavo), por António Mónica, pai do Mestre Manuel Maria Mónica. Do estaleiro, era proprietário o Sr. Razoilo, de quem era sócio o «nosso» João Pereira Ramalheira Júnior, que fez duas viagens (já citadas) como capitão, no referido hiate, em 1906 e 1907, cujo salário de capitão serviu de moeda de troca para o pagamento da sociedade, segundo notícia do jornal Beira-Mar, de 21.4.1923.

Hiate encalhado denominado Razoilo. Sempre ouvi dizer que era este último, o construído na Malhada

Depois de uma primeira viagem feita na escuna Creoula, na safra de 1908. a  última viagem aos Grandes Bancos, atestada pelo próprio capitão, foi feita na mesma escuna, no ano de 1913, em que foi adoeceu com  uma pneumonia, que conseguiu curar a bordo do navio francês «Saint François», onde marinheiros portugueses eram hospitalizados e do qual recebiam, eventualmente, a necessária ajuda humanitária.

Escuna Creoula. Foto de autor desconhecido.

No ano de 1914, ficou em terra, empregado na seca, como supervisor dos terrenos que a PGP, aí detinha, em Darque, na margem esquerda do rio Lima. Terá sido a fase menos conhecida da sua vida, coincidente com os anos da I Grande Guerra. Fez uma viagem a S. Miguel no Gamo, em 1916, com objectivos ignotos, dirigindo-lhe, posteriormente uma obra, em Viana.
Tendo, por esses anos, a pneumónica passado por todos os familiares, sem que os ceifassem, deu ordens, para que, logo que possível, toda a família seguisse para a Azinheira. A 17 de Novembro de 1918, assim sucedeu, tendo ido todos – o Aníbal, a Judith, o Ângelo, o Paulo, a Zália, a mãe e a criada (o João estava emigrado no Brasil).
Gerente da Parceria Geral de Pescarias, a partir de Outubro de 1918, aposentou-se  em 1935, tendo vindo viver definitivamente para Ílhavo.

PGP. Azinheira Velha, em 1931

Várias e árduas teriam sido as tarefas da gerência de uma empresa como aquela, sobretudo, no pós-guerra, mas uma que destaco, porque já a conhecia, foi todo o apoio que deu à construção do lugre com motor, Hortense, pelo mestre Manuel Maria Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1930. Segundo imprensa da época, o navio, que passou por algumas contrariedades no deslize, no domingo, em 4.4.1930, só as ultrapassou na segunda-feira. Em casa de João Pereira Ramalheira, nosso conterrâneo e gerente da PGP, em Ílhavo, foi servido um copo de água, aos convidados.
 
 Na sua terra de origem  faleceu, vítima de trombose, em 7 de Julho de 1944, com 70 anos.
Não há dúvida que a família Ramalheira, entre outras, de Ílhavo, nasceu para a vida de mar…
João Pereira Ramalheira Júnior, por todas as suas experiências, proezas, aventuras e vivências, foi um homem do mundo, sempre a sua sede em Ílhavo.
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Ílhavo, 11 de Fevereiro de 2018
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Fotos cedidas pelo neto Vitorino Ramalheira e arquivo pessoal da autora.
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Ana Maria Lopes
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domingo, 28 de janeiro de 2018

Homens do Mar - Carlos Fernandes Parracho - 41

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Cap. Carlos Fernandes Parracho

Ainda conheci razoavelmente o Cap. Carlos Parracho, tive tempo para isso, mas lembro-me, sobretudo, da família, na casa da Costa Nova. Ficava, exactamente, nas traseiras da minha, com entrada para a Avenida da Bela Vista, com partilha de uma entrada de viela comum.
Filho de António Fernando Parracho e de Rita de Jesus, nasceu em Ílhavo, na Freguesia de S. Salvador, a 11 de Dezembro de 1904. Praticamente, na viragem do século… A família Parracho, conhecida por cá e por outras localidades ribeirinhas, teve fortes ligações ao mar. O Cap. Parracho, de alcunha, o Marcela, era irmão mais velho do Cap. João Fernandes Parracho, conhecido por Vitorino, também ele homem da Faina Maior, que velejou, igualmente, pelos navios da Figueira da Foz, antes de os trocar pelos da praça de Aveiro, a quem já dediquei umas páginas no livro «Tributo a Capitães de Ílhavo».
Assim aconteceu com este irmão. Do casamento com Silvina da Rocha Bilelo, conhecida por Silvina Carrancho, em 1924, nasceram três rapazes e duas raparigas. Os três rapazes, Aníbal Rocha, António Manuel e Carlos Alberto foram também oficiais da Marinha Mercante. Aliás, foi o mais velho, o Cap. Aníbal Parracho, último capitão do Gazela Primeiro, na safra de 1969, já de provecta idade, que se deslocou ao Museu acompanhado do filho Carlos Júlio, também ele capitão da Marinha Mercante, para conversar comigo, fornecer-me elementos e recordar episódios marítimos referentes ao Pai. Não eram muitos, mas…os possíveis.
Segundo a convicção do filho, o Cap. Carlos Parracho, sempre andou no bacalhau, onde se iniciou com doze anos, seguindo o percurso dos «meninos» do seu tempo. Mar e mar…
Desde que existem informações credíveis, o seu nome aparece como piloto do lugre-motor Trombetas, nas campanhas de 1936 a 1939, sob a orientação do capitão figueirense Elias Andrade Bilhau. Este lugre, de madeira, tinha sido construído para Lusitânia Companhia de Pesca, Lda., em Fão, em 1922. No ano de 1938, sofrera um terrível acidente de que o jornal O Ilhavense de 28 de Maio do mesmo ano, nos dá conta:
 Na manhã do dia 10 deste mês, a 42 º-29’ de latitude Norte e 41 º-10’ de longitude Oeste, pelas 7 horas e meia da manhã, o Trombetas foi apanhado por um violentíssimo tufão, que lhe varreu ao mar nove homens, dos quais dois se conseguiram salvar muito a custo. O vagalhão que lhe invadiu o convés, arrastou-lhe 35 «dóris», partiu-lhe o leme, o albói da ré e 2 faróis de borda, levou-lhe a agulha, avariou-lhe a instalação eléctrica e o motor, que só passou a trabalhar para vante.
O navio conseguiu chegar a Ponta Delgada no dia 16, onde ia reparar as avarias para, de novo, se fazer ao mar, rumo à Groenlândia, em busca do pão daqueles que vão para a pesca do bacalhau.
Embora do mesmo armador, Lusitânia Companhia de Pesca, Lda., Carlos Parracho estreou-se como capitão em 1940, do lugre de madeira Leopoldina, construído em Caminha, por A. Dias dos Santos Borda, em 1899. Em 1906, tornou-se propriedade da Lusitânia. Aí perfez três anos de mar – de 1940 a 1943. Neste período, teve como imediato, em 1940, o ílhavo Júlio António Lebre.

O lugre Leopoldina

Continuando pela Figueira da Foz, o Capitão Marcela, como era mais conhecido, e ao serviço da Lusitânia, mais uma vez, chegou a altura de mudar o estrafego (aprestos) para o convés do Luzitânia III. Este lugre de madeira construído por José da Silva Lapa, em Vila Nova de Gaia, em 1918, cessou a sua actividade em 1945, exactamente na terceira safra em que o nosso capitão por lá se manteve – de 1942 a 1945. Foi um dos primeiros navios a instalar motor propulsor, para a campanha de 1932. Teve como imediatos, António Mesquita Ribeiro, da Figueira da Foz (1943 e 44) e o ilhavense António de Morais Pascoal, em 1945, em início de carreira.
Naquela altura, demandar o porto da Figueira era uma aventura… então, o Luzitânia, no regresso da viagem de 1945, ao fazer-se à barra, a reboque do vapor Setúbal, encalhou. Conseguindo safar-se, voltou a encalhar, num banco de areia, em frente ao Mercado Municipal. O próprio rebocador Setúbal também «sonhou o fundo» e bateu com a quilha na areia, avariando o leme e o hélice. O Luzitânia teve que ser aliviado, abrindo-se-lhe também um canal, fazendo escavações dia e noite, durante os períodos do baixa-mar.
Mesmo à boca da barra e na ansiedade do retorno ao seio da família, estes achaques esperavam os nossos homens do mar. Quem diria!...
Chegou o ano de 1946 e até 49, Carlos Parracho comandou o navio Bissaya Barreto. Este, construído também para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, Lda., por Benjamim Mónica, na Figueira da Foz, em 1943, foi o primeiro navio-motor de pesca à linha construído de madeira. A ele voltaremos.
 
Navio-motor Bissaya Barreto, na Figueira da Foz…

Durante estas quatro safras, sem muito de especial a referir, realçando sempre a dureza da vida do mar em tais condições, teve como imediatos, os ilhavenses João André Alão, de alcunha, o Rigueira (1946 e 47), Paulo de Oliveira Bagão (1948) e Amândio Fernandes Matias, de alcunha, o Parracá (1949).
Chegado a metade do século, na safra de 1950, o «nosso capitão» comandou o navio-motor, de madeira, Cova da Iria. Ex-Vilas Boas, foi construído para a Parceria Marítima do Douro, por José Mónica, nos estaleiros da Afurada, em 1944. Adquirido pelo armador João Maria Vilarinho, participou na campanha de 1949. Este ano de 50 trouxe muito que contar a Carlos Parracho, que naufragara, com água aberta, no dito Cova da Iria, em viagem da Groenlândia para Portugal, por se lhe ter partido o leme sob violento temporal.
Em imprensa da época, colhi alguns destes dados. Na viagem da Groenlândia para Portugal, em inícios de Setembro, a tripulação vinha toda satisfeita, com uma boa pescaria de 14.000 quintais. Não contava com um valente temporal que, a setecentas milhas dos Açores, tivera que enfrentar. Logo de início, partiu o leme, que, por ordens do capitão, foi substituído por uma esparrela (leme improvisado). Também não durou muito e, violentamente, foi espatifado. Capitão, imediato, Francisco António Bichão, de alcunha, o Saltão, e o contramestre, então ferido, iam morrendo. Com o ímpeto do temporal, o navio, desgovernado, atravessou-se e ficou à mercê do vento e do mar. Assim que o capitão deu ordem aos tripulantes para arriarem os botes e neles se fazerem transportar para o Inácio Cunha, aqueles 78 homens trataram de abandonar o Cova da Iria, manobra delicada e de muito risco, devido ao estado do mar, e que teve de ser feita com toda a prudência. À medida que os dóris se iam afastando, o capitão, agarrado à amurada, ia contando os seus homens, não fosse algum ficar por lá, atordoado. Depois, ordenou aos principais da equipagem e, conforme o regulamento internacional, que acelerassem o afundamento do navio, incendiando-o.
O mar, dominando o Cova da Iria, galgava-o já por todos os lados, impossibilitando o comandante de sair da ponte. Então o Capitão Marcela, sobre a ponte de comando ao ver-se sem bote, não hesitou e lançou-se à água. Os homens dos botes, ao avistarem-no, remaram em seu auxílio e conseguiram agarrá-lo, quando as forças já lhe faltavam.
O Capitão do Inácio Cunha, João dos Santos Labrincha, assim que o seu camarada se aproximou da borda do seu navio, foi ampará-lo, conduzindo-o ao camarote, enquanto os outros náufragos foram confortados pelos outros membros da companha do Inácio Cunha, partilhando os seus beliches.
O navio salvador chegou no final de Setembro ao porto de Leixões com os náufragos do Cova da Iria (existe uma foto comprovativa desta chegada), tendo tido uma calorosa e emocionante recepção da parte dos familiares, autoridades, armadores e entidades relacionadas com o navio.
O jornal O Ilhavense do primeiro de Dezembro de 1991, pela pena de Fernando Parracho, recorda este naufrágio, ao mais minucioso pormenor.

Navio-motor Cova da Iria

Mas, nem tamanho susto fez com que o Cap. Parracho suspendesse alguma viagem. Na safra de 1951, já estava a postos para comandar o Groenlândia.
Ex-Viana, ex-lugre-escuna Groenlândia, foi reconstruído para Armazéns José Luís da Costa & Ca. Lda., nos Estaleiros de António Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1940.
Durante os quatro anos que o comandou, de 1951 a 54, teve como imediatos Manuel Joaquim Pinto, de Aveiro (51), Cesário Augusto Fernandes da Cruz (52) da Gafanha da Encarnação, João André Alão (53),de alcunha, o Rigueira, de Ílhavo e Vital Grandvaux Barbosa, de Lisboa.

Que belo exemplar de bacalhau!...

E em 1955, transferiu-se, numa «nova emposta» para o navio-motor de madeira, Paraíso. E que navio vem a ser este? O Bissaya Barreto, que o nosso capitão já comandara, quando procedia a reparações no Douro, fora destruído por um incêndio, em Janeiro de 1950. Entretanto, reconstruído para a Empresa de Pesca de Portugal, de Ílhavo, em 1955, por José Gomes Martins (o Viola), na Gafanha da Nazaré, cá o temos de volta aos bancos, apelidado de Paraíso, com o capitão Marcela, no seu comando, tendo levado como imediato, Belarmino Ascenção de Oliveira, residente em Ílhavo.

Navio-motor Paraíso

E em 1956? Comandou o navio-motor Rio Antuã, ex-Bissaya Barreto, ex-Paraiso, que, em 1956, passou a pertencer à Empresa de Pesca de Aveiro, com o nome de Rio Antuã. Como imediato, continuou com Belarmino Ascenção de Oliveira, seu imediato, na viagem anterior.
E, a nível da oficialidade, na safra de 1957, foi seu imediato Carlos Augusto Correia Nóbrega da Silva, de Aveiro e, piloto, Aníbal Carlos da Rocha Parracho, seu filho mais velho, que acima referimos como o nosso guia para a elaboração deste trabalho – encontro de gerações, frequente em Ílhavo.
Durante mais 3 anos, de 1958 a 60, pai e filho ocuparam os dois lugares de topo, no navio Rio Antuã.

Cap. Carlos Parracho, a bordo…

E, na campanha de 1961, mais uma «emposta», já quase com sessenta anos, desta vez, para o lugre-motor Adélia Maria, onde já navegaram outros oficiais com quem tive uma ligação muito próxima.
E aí fez cinco viagens, até 1965, tendo sido seu imediato, sempre, um seu outro filho, António Manuel da Rocha Fernandes Parracho, já falecido. Na última viagem, de 65, maleitas do coração atormentaram-no e, por ordem do médico do Gil Eannes, esteve mais «recolhido», ficando o seu filho mais à frente das preocupações do navio e da pesca. E assim deixou definitivamente o mar, após uma longa carreira, tendo-se aposentado em Janeiro de 1972.
O lugre com motor, de madeira, com quatro mastros, Adélia Maria, da praça de Aveiro, foi mandado construir para o armador José Maria Vilarinho, por João Bolais Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1948.
Lugre-motor Adélia Maria, na Groenlândia
Mesmo com problemas de coração, ainda viveu bastantes anos no nosso Ílhavo, saboreando uma merecida aposentação. Frequentava assiduamente o Sindicato dos Oficiais, no segundo andar do edifício do Illiabum Clube, onde, com diversos colegas e amigos, jogava cartas e conversava sobre a evolução da vida do mar. «Partiu», descansado, e com o sentimento do dever cumprido, em 23 de Janeiro de 1993, com 89 anos.
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Imagens amavelmente cedidas pelo filho Aníbal Parracho.
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Ílhavo, 19 de Dezembro de 2017
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Homens do Mar - João de Jesus da Rocha Agra - 40

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João de Jesus da Rocha Agra

Esta história de um Homem do Mar, ou melhor de um Jovem do Mar, tardou a aparecer. Porquê? Como? Quando?
Procuram-se, mas só vêm ter connosco, quando menos pensamos. Depois, cruzam-se os dados do «puzzle» e o jogo bate certo.
Aquando da história de José Duarte Oliveira, que perdeu a vida, em pleno oceano, na ânsia de carregar mais o bote, enquanto pescador do lugre- motor D. Diniz, na viagem de 1952, tendo deixado a sua mulher, eterna viúva, com três filhas para criar, pelo menos a família, emocionou-se com esta narrativa, pressagiada num belo e profundo sonho premonitório.
Num comentário ao sucedido, então, na dita Faina Maior, João Cândido Agra, através do FB, informou-me que um seu tio/padrinho de quem tinha a cédula marítima, também tinha perdido a vida na pesca do bacalhau, num dóri, enquanto pescador do Milena, em 1955. O caso chocou-me, interessou-me e repliquei que haveríamos de falar. Mas, outras tarefas se impuseram.
Eis senão quando, ontem, no Museu Marítimo de Ílhavo (o lugar certo), enquanto apreciava os modelos de embarcações tradicionais apresentados a concurso, dei de caras com o tal João Cândido Agra, ao apreciarmos, ambos, a mesma peça. Deu-se a conhecer, pois já falara, virtualmente, comigo, e contou-me que tinha construído aquele modelo de dóri, patinado pelo tempo, e corroído por alguma ferrugem dos anos, em memória do seu tio/padrinho, que desaparecera, no dóri, enquanto pescador verde (que pesca pela primeira vez), do lugre Milena, em 1955. Alto! O assunto interessou-me, trocámos umas palavras e pedi-lhe que procurasse documentação que tivesse dele, para acertarmos um encontro mais esclarecedor.
Mas, a conversa ficou por ali.
Como se chamava? – perguntei  eu. Não tinha a certeza. João de Jesus?
Seria melhor confirmar.
Ao entardecer, a curiosidade despertou-me e toca de tentar encontrar o nome, entre os maiores da Faina Maior. Mas só com João de Jesus, não chegava lá e os dados não batiam certo. Experimentei teclar também Agra e surge-me um nome que preenchia os requisitos – João de Jesus da Rocha Agra, nascido em Ílhavo, em 20 de Agosto de 1934. Tentei situar-me no tempo, na tragédia e debrucei-me numa foto que já tinha dele – moço, jovem, aprumado, bonitão, de olhos grandes, escuros, vivaços, cheios de sonhos, que se afundaram, eternamente nas águas do oceano. Pareceu-me.
Quem teria sido o capitão do Milena, em meados da década de 50? Mais propriamente, em 1956…
Pensemos nas situações que originavam estes desaparecimentos – o demasiado afastamento do navio, neste caso de pescador-verde, a pouca experiência, uma brisa levantada repentinamente que enraivecera o mar ou um forte nevoeiro, que, rapidamente, toldara o horizonte. Qualquer uma destas razões poderia ter sido o motivo do desaparecimento do jovem João de Jesus Agra. Ou, então, nenhuma destas.
Depois do encontro com o sobrinho e do que me contou, algo mais compôs o cenário, mas, o resultado era aquele e só ele – afundara-se no oceano, enquanto pescava.
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Milena, à entrada de Leixões.

Teria, porventura, pais, que terão sofrido uma dor profunda e eterna, não tinha ainda família constituída, mas, sempre uma mulher, de permeio. Deixara, uma jovem namorada, na sua terra natal – Ílhavo – a sua prometida, com quem tencionava casar, no Dezembro seguinte, após a viagem. Dor sem fim, virara viúva antes do tempo.

Alto, forte, espadaúdo, um castelo de um jovem, engolido pelas águas – assim era o João Agra, nascido em Ílhavo, em 29 de Agosto de 1934, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus. Com a cédula passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 21 de Janeiro de 1951, tinha a formação da Escola de Pesca e fora tripulante do Milena de 1951 a 1956, como como moço nos dois primeiros anos, passando a verde, a maduro e a 2ª linha, à data do acidente.
Nada como tentar escalpelizar e procurar pormenores… No Ciemar, porventura, encontraria a resposta, se a sorte me rondasse. Pedi O Ilhavense e perguntei se havia o Diário Náutico do Milena, da campanha de 1956 (era essa a data certa). E havia. Folheei-o emocionalmente, à espera de algo que me esclarecesse completamente. De folha em folha, cheguei a 6 de Maio e aí, nas observações, surge-me a nota esclarecedora, que procurava – Bom tempo. Chamou-se às 16 15. Pelas 19.30, como todos os botes estivessem dentro, deu-se por falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, que se afundou com a embarcação que tripulava. Mais uma página e abanada pela emoção, deparei com o:

Termo de Óbito

Aos sete dias do mês de Maio de mil novecentos e cincoenta e seis, o lugre-motor Milena, propriedade da Indústria de Aveirense de Pesca, Limitada, na posição estimada quarenta e seis graus e quatro minutos Norte e quarenta e nove graus cincoenta e nove minutos Oeste de Greenwich, arriou este navio a sua campanha para o exercício da faina da pesca às treze horas e trinta minutos com vento fraco e bonançoso de Oeste-Noroeste, mar encrespado e boa visibilidade, condições estas consideradas como boas e normais para trabalhar, tendo todos os navios arriado e estando à vista, com os botes na água, os bacalhoeiros «Maria das Flores» e «S. Jorge». Pelas dezasseis horas, o Capitão do navio suspendeu e navegou trinta minutos para Les-Sueste, ficando assim todos botes a barlavento.
Pelas dezasseis horas e quinse minutos, içou a bandeira chamando para bordo a sua companha. Os botes começaram a chegar a bordo pelas desassete horas e quinse minutos.
Às dezanove horas e trinta minutos, estando já todos os pescadores dentro, deu-se pela falta do número seis, João de Jesus da Rocha Agra, natural da freguesia e concelho de Ílhavo, nascido a vinte e nove de Agosto de mil novecentos e trinta e quatro, filho de Manuel da Rocha Agra e de Leonor de Jesus e inscrito marítimo na Capitania de Aveiro, sob o número vinte e seis mil seiscentos e trinta. Segundo informações do pescador José Borda d’Água Hilário, o tripulante em questão encontrava-se ao Norte do navio alando o seu aparelho.
Imediatamente o capitão suspendeu e se dirigiu para rumo indicado. Depois de várias pesquisas até ao anoitecer viemos para sotavento da posição indicada onde permanecemos fundeados até ao alvorecer.
Pelas cinco horas do dia oito suspendeu e navegou durante quatro horas e meia a vários rumos contornando a posição em que se encontrava aquele pescador.
Depois de todas estas tentativas e como não se encontrassem quaisquer vestígios, reuniu o Capitão os seus oficiais e principais da equipagem, concordando todos que o desditoso pescador se afundou juntamente com o bote que tripulava quando se encontrava a alar o aparelho tanto mais que as botas de cabedal e o fato de oleado que usava quando pescava lhe dificultavam bastante os movimentos.
A atestar esta afirmação tomamos em linha de conta, em virtude de se encontrarem perto o lugre «Maria das Flores» e navio-motor «São Jorge», pescando também, o facto de por nenhum deles ter sido recolhido, tanto mais que as condições de visibilidade eram esplêndidas. Como aliás o eram inicialmente.
Em fé do que se lavrou o presente termo de óbito, que vai ser assinado pelo capitão e principais da equipagem.

Joaquim Manuel Marques Bela – capitão
Silvério Conde Teixeira – imediato
Flávio da Silva Pereira – piloto
Francisco Malaquias Matias Lau – 1º motorista
Albino Domingues Gafanha – 1ª linha

Folheando o diário, no sentido de saber como se passou o dia seguinte, a bordo, deparei com este registo, no dia 8 – Bom tempo, mar e horizonte. Não se arriou em sinal de luto.
No jornal O Ilhavense de 20 de Maio de 1956, a notícia VARRIDO ao MAR dá-nos conta que de bordo do lugre «Milena» foi varrido ao mar o pescador ilhavense João de Jesus Rocha Agra, solteiro, de Cimo do de Vila.
Consultado o Jornal do Pescador desse ano, não encontrei qualquer referência. No ano de 1953, no mês de Janeiro, p. 16, nas Notas de elogio dos capitães, relativas ao aproveitamento dos alunos da Escola Profissional de Pesca, embarcados na campanha de 1952, o capitão do Milena, Carlos Augusto de Castro, sobre o João de Jesus da Rocha Agra, refere que cumpriu a contento todas as suas obrigações.

Foto da cédula marítima

E por aqui fica o relato de acontecimento tão triste e da preocupação da tripulação em localizar e salvar o desditoso jovem, cuja sepultura foram as profundezas geladas do Oceano.
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Ílhavo, 23 de Novembro de 2017
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Fotos – cedidas pela Família e pela Fotomar
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Ana Maria Lopes
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sábado, 9 de dezembro de 2017

Homens do Mar - João Simões Chuva - 39

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João Simões Chuva, o Anjo

É suposto saber-se que adoro clichés antigos da pesca do bacalhau. Valem o que valem, mas eu adoro-os. E quando consigo alcançar alguns, rejuvenesço, alegro-me. Que boa pescaria! – penso.
Não conheci e muito menos convivi com o Capitão Anjo, mas as fotos que um seu sobrinho me facilitou, a sua qualidade hollywoodesca e antiguidade falam por si e merecem que as enquadre num currículo marítimo alargado do fotografado, família e «seus navios», à época.
O Capitão João Simões Chuva, o Anjo, nado e criado em Ílhavo (6 de Fevereiro de 1901), morador na Rua Direita, era filho de António Simões Chuva, o Anjo e de Josefa Machado.
Do seu casamento com Carminda Maia Pinguelo, em 1928, nasceu a Maria Natércia, mais tarde, professora do Ensino Primário, de que me lembro bastante bem. Não deixou descendência.
O Cap. Anjo era portador, com dezasseis anos, da cédula marítima nº 14.940, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 6.9.1917. Pertenceu a uma geração, transição de séculos XIX/XX, em que era hábito começarem a embarcar cedo com familiares ou amigos, mas disso não temos dados concretos.
Teria feito algumas viagens no comércio? – fica a dúvida.
Tive conhecimento, em nota de arquivo, de que exerceu actividade marítima desde 1928, não tendo tido colocação entre 1930 a 1932, anos de crise, o que aconteceu com outros oficiais.
O seu nome aparece, efectivamente, ligado à pesca do bacalhau, na Ficha do Grémio, em 1936, como piloto do Neptuno II, lugre de madeira construído em 1873 em Vila do Conde, comprado por Bensaúde & Companhia, em 1889, propriedade da Parceria Geral de Pescarias. Foi seu comandante Adolfo S. Paião Júnior, o conhecido capitão Adolfo.
Mais um ílhavo que fez a sua vida marítima, infelizmente não muito longa, pela Parceria Geral de Pescarias.
De saco e bagagens no convés, mudaram-se, ambos, nas campanhas seguintes de 1937 e 38, para o belo Hortense, com os mesmos postos de piloto e capitão
Iniciada a nova década, a de quarenta, ambos se transmutaram para o mítico Argus, navio de aço, de quatro mastros, mantendo os mesmos postos. Hermenegildo Rodrigues do Passo foi o imediato – natural  da Fuseta, que tanta gente forneceu para a pesca do bacalhau, sobretudo, pescadores.

No barbeiro, a bordo do Argus…, 1940

Na safra de 1942, logo surgem de novo, o piloto António Simões Chuva e o Capitão Adolfo, agora de salto para o lugre Creoula. Nesse ano, o imediato, Manuel da Silva Costa, também era de Ílhavo.
No ano de 1943, o então «piloto Anjo» passou a imediato do mesmo navio, com o mesmo capitão. Manuel da Silva Costa, também de Ílhavo, exercera o cargo de piloto.
E na campanha de 1944 e seguintes, até 48 (inclusive), João S. Chuva continuou de imediato, mas, agora do Argus, sempre com o capitão Adolfo. Nestes cinco anos, os pilotos foram: José Simões Negócio (44 e 45), António Remígio Sacramento Teiga (46) e João Fernandes Matias (48), todos de Ílhavo. Desde 1937 a 1948, João Chuva, piloto/imediato, e Capitão Adolfo Paião, sempre constituíram um dueto, que, numa dança de cadeiras, usual nas empresas, nunca saiu da mesma, apenas mudando de navio – considerando, à laia de conclusão.
E chegou o ano de 1949 em que o «nosso capitão» se estreou mesmo no comando do lugre-patacho Gazela Primeiro, que dispensa considerações e muito menos apresentações.

Com a mulher, a bordo do Gazela, em1949

E nova década, a de cinquenta, começa e ei-lo como capitão do belo e elegante Hortense, um cisne branco de asas ao vento. Durante estes anos, foram seus pilotos, que tenha conseguido fixar, Francisco Manuel de Oliveira Leite, mais conhecido pelo Chico Leite, em 1951, de Ílhavo.
 
A bordo do Hortense, no início da década de 50

Da esquerda para a direita, na foto anterior, a filha Maria Natércia, o piloto Chico Leite (51) e a mulher do capitão, Carminda Pinguelo.

A bordo do Hortense, no início da década de 50

Da esquerda para a direita, na foto anterior, a filha Maria Natércia, o Capitão Anjo e sua mulher.
E não encontrei mais notificações de embarques, nem na PGP, nem noutra qualquer empresa. Ficou-se pelo tal cisne branco, um dos mais belos e elegantes veleiros da época.

O belo Hortense, a todo o pano…
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E, cerca de dois anos depois, a 17 de Maio de 1956, com 55 anos, partiu para a tal viagem sem regresso, de forma inesperada, vítima de um colapso cardíaco.
Nada como a ajuda do amigo Marques da Silva, na identificação das fotos dos navios, que conheceu, por pormenores ínfimos, tal como as suas mãos. Do capitão Anjo, como lhe chamavam, testemunhou-me ter sido muito boa pessoa, muito afável, com quem se gostava de conversar.
O João Aníbal Ramalheira, seu sobrinho por via materna, chegou a conhecer o tio, a quem chamava Tibão, sendo o dono, ainda hoje, do palheiro que fora dele, na Costa Nova, na Avenida Belavista. Pessoa hábil e habilidosa, fez e arranjava relógios de parede, de que ele ainda hoje, afectuosamente, guarda dois.
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Fotos gentilmente cedidas por João Aníbal Ramalheira.
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Ílhavo, 16 de Novembro de 2017
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Ana Maria Lopes
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domingo, 19 de novembro de 2017

Homens do Mar - João Fernandes Matias - 38

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Capitão João Fernandes Matias

Tendo tido um percurso idêntico ao do capitão José Luíz Codim e, sendo, praticamente, do mesmo ano de colheita, hoje, vamos recordar João Fernandes Matias, conhecido por João do Creoula, por ter havido, em Ílhavo, mais capitães com o mesmo nome.
Nasceu na nossa terra maruja, no primeiro de Dezembro de 1925, filho de Manuel dos Santos Matias e de Felicidade dos Santos Matias, na Rua da Fontoura.
Depois do casamento com Deolinda Pereira Senos, de quem teve dois filhos – o Manuel João e a Teresa do Rosário – construiu casa na Avenida Mário Sacramento, nº 125, mais conhecida por Avenida dos Capitães, que passou a habitar. Foi aí que, na década de noventa do século passado, o procurei para conversar e me emprestar fotos da faina do mar que, porventura, tivesse. Como imediato que tinha sido do navio Argus, em 1950, possuía a relíquia do álbum que lhe tinha sido oferecido por Alan Villiers, já tantas vezes por aqui mencionado. Por gentileza, cedeu-mo, para usar como entendesse.
Na escola primária, foi um dos alunos do Professor Catarino, colega do Padre João Paulo, do Mário Vizinho, do Fernando Pinho (Sanana), do Edgar Peixe, do Aníbal Ramalheira, do Manuel Cardoso e tantos outros, que, todos os anos, reuniam em almoço-convívio, no sábado anterior ao Senhor Jesus dos Navegantes, num restaurante, a gosto, até desaparecer o último do grupo.
Capitão já de uma geração mais recente, era portador da cédula marítima nº 25.063, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 11 de Agosto de 1945.
Mais um marinheiro, a enveredar pela pesca do bacalhau, tendo, praticamente, sempre servido a Parceria Geral de Pescarias.
Por informação casual, mas bem memorada do amigo Vitorino Ramalheira, João Matias fora o piloto, em estreia de vida profissional, do navio-motor, de três mastros, Lutador. Eram ambos estreantes, na campanha de 1946, o navio e o piloto – recorda Vitorino Ramalheira. Era capitão Sílvio Ramalheira e imediato, Manuel dos Santos Marnoto Praia. O navio até tivera de sair mais tarde e, levara, com se fazia, à época, alguns passageiros clandestinos, a bordo, até Lisboa, entre eles, o amigo Vitorino, com 15 ou 16 anos, na altura, e outros.
Na campanha de 1947, foi de imediato no lugre com motor Júlia IV, da praça da Figueira da Foz, sob o comando de João Fernandes Parracho, o Vitorino. E tantos oficiais de Ílhavo por ele passaram… vaidosos dos Júlias.
Depois destas primeiras experiências, lá rumou à Parceria Geral de Pescarias, por onde foi ficando, tendo vindo a chefiar três dos seus navios.
Entre 1948 e 1951 (inclusive), fora imediato do famoso e esbelto Argus, sob o comando do capitão Adolfo Paião. De Ílhavo, neste período, foram pilotos, ele próprio, na safra de 1948, e José Luiz Nunes Oliveira, de alcunha Codim, nas de 1950 e 51. João Simões Chuva, de alcunha Anjo foi também imediato, na campanha de 1948.
Na viagem de 1950, a bordo do Argus

Por ordem, na foto, o Capitão Adolfo, João Matias, imediato, César Maurício (1º mot.), José Luiz Codim, piloto e Manuel Laracha (2º mot), junto à gaiúta.
Deu o salto para capitão, entre 1952 e 1957, do mais que célebre lugre- patacho Gazela Primeiro, que ainda vai velejando lá para as bandas das Américas. Foram seus imediatos, na campanha de 1952, Pedro Vilardebó Loureiro, na de 1954, António Simenta de Carvalho e nas de 55, 56 e 57, Guido Serras Pires, todos residentes em Lisboa.

Em pé, a bordo, mais acima, norteando trabalhos…
Como capitão, desta «emposta» arribou ao lugre com motor, de ferro, Creoula, hoje o conhecido NTM, pertença do Ministério da Defesa, com o mesmo nome. Comandou-o entre os anos de 1958 e 68, perfazendo o belo número de 11 safras. O tempo foi avançando e as fontes de informação acerca dos imediatos, rareando.
Apenas consegui apurar Guido Serras Pires, nas safras de 58 e 59 e João Sílvio Serrano Matias, em 1968, de Ílhavo.

Entre as selhas, baldeando o convés…

E com o ano de 1969, chegou o tempo de mudança para o navio Neptuno, também pertencente à Parceria, que comandou até 1973. Construído de aço, este navio, nos extintos e saudosos Estaleiros de São Jacinto, em 1958, efectuou a última campanha em 1970, tendo sido transformado para navio de redes de emalhar com lanchas, em 1971.
 
Alguns, últimos dos últimos,  comandantes dos nossos veleiros…

Na foto, da esquerda para a direita, capitães António Marques da Silva, João Fernandes Matias, Francisco Paião (Almeida), Aníbal Parracho e José Luís Oliveira, Codim.
Depois do bacalhau, o «nosso» capitão embarcou em navios do comércio da empresa Econave, em viagens entre Portugal, Norte da Europa e Mediterrâneo. Começou como imediato no Eco Sado, comandado por António Marques da Silva, tendo passado a chefiar navios da mesma empresa, senão, todos.
Ainda na década de 80, esteve com o Pai, em Inglaterra, quando chegava a Liverpool, para o que tinha de percorrer uma escassa hora de comboio – relembrou-me o Manuel João.
Quando, já depois de reformado, convivia com os amigos, nos bancos do Jardim, aqui em Ílhavo, e tocavam as 12 badaladas do meio-dia, levantava-se e ia para casa almoçar, invariavelmente. No último percurso a pé, entre o Jardim e a sua casa na Avenida Mário Sacramento, foi atropelado por um automóvel, acidente do qual resultou a sua morte, pouco tempo mais tarde, a 28 de Junho de 2006, com 81 anos.
Pessoa reservada, mas dotado de uma inteligência invulgar, com uma memória notável, qualidades que só eram conhecidas por quem convivesse com ele, de perto – assim o recordou Marques da Silva.
Na década de 90, sempre que o NTM Creoula, em consonância com a Câmara e o Museu, visitava a Gafanha da Nazaré, sempre esteve presente, juntamente com outros seus colegas que tinham sido oficiais do navio, para uma agradável recepção a bordo.
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Imagens – Fotos de A. Villiers e outras, cedidas pela Família
Ílhavo, 19 de Novembro de 2017
Ana Maria Lopes
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