sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Homens do Mar - Samuel Corujo - 36

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Samuel Lopes Corujo
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Vizinho de rua, Ferreira Gordo, nº 20, há tantos, tantos anos, homem simples, bom, simpático, dado, afável – Samuel Lopes Corujo –, desta vez chegou o momento de lhe rememorar as histórias marítimas. Já o tinha lembrado como o «Sr. Samuel das garrafas» – explicarei porquê – mas, desta vez, é o motorista, o homem do mar que vou recordar.
Samuel Lopes Corujo, nado e criado em Ílhavo (1922-2005), filho de Samuel Francisco Corujo e de Emília Augusta Lopes Corujo, casou com Maria Victorina S. Marques em Agosto de 1948. Deste casamento, nasceram três filhos: Emília Augusta, António Samuel e José Manuel.
Era portador da cédula marítima nº22226, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 1937.
Apenas com 15 anos de idade (em 1937) fez a sua viagem de baptismo como ajudante de maquinista no lugre com motor Anfitrite 1º (1927-77), de quatro mastros, que se dedicava apenas ao comércio e no qual viajou muitas vezes para as costas da América e de África.
Lugre Anfitrite . Col. de LMC
Seguiu-se o lugre Patriotismo, também do comércio, em que naufragou, ao largo de Peniche, em 17 de Fevereiro de 1941, devido a um ciclone que assolou a costa portuguesa. Parece que o navio foi abandonado por falta de condições de navegabilidade. Transportava carvão do Porto para Lisboa, quando naufragou, tendo morrido o contramestre, que, curiosamente, era o único tripulante que não era de Ílhavo.
O lugre Patriotismo, em Peniche, em 1941.
O Patriotismo, lugre de madeira, construído para a Parceria Marítima Douro, Lda., por José Dias dos Santos Borda Júnior, em Fão, em 1924, destinou-se à pesca do bacalhau, tendo feito a última campanha em 1939 e tendo passado para o comércio em 1940. Navegou só à vela até 1934, tendo recebido motor auxiliar em 1935.
Em 1949, Samuel Corujo, 8 anos depois, passou, definitivamente, a motorista/maquinista de arrastões da pesca do bacalhau, onde passou por algumas peripécias, sofrimentos e tragédias. Que mais labutas lhe reservaria a vida de mar?
Depois de, em 1949, ter ido buscar o arrastão António Pascoal, à Holanda, onde fora construído para a empresa Pascoal & Filhos, sediada na Gafanha da Nazaré, entre 1949 e 1952 (inclusive), exerceu o cargo de 3º motorista nesse mesmo arrastão, tendo-o estreado, sob o comando do capitão ilhavense Manuel Pereira da Bela, com duas viagens nos dois primeiros anos e uma, nos dois últimos. Nada de anormal, segundo creio, a bordo.
Em 1953, Samuel Corujo numa nova emposta, muda de arrastão e vai ao mar no Santa Mafalda.
Era um arrastão lateral construído em 1948, para a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), pelo estaleiro Odero Terni Orlando, em Livorno, Itália.
Foi para ficar por 14 anos, equivalentes a 23 campanhas, pois os arrastões nem sempre faziam duas viagens por ano e nem sempre a tripulação se mantinha. A última viagem que não chegou a ser realizada, acabou com o naufrágio do arrastão. Durante esta porção de tempo, Samuel Corujo conheceu os capitães António Trindade da Silva Paião (1953, 54 e 55), José de Oliveira Rocha, (de 1956 a 65), António Trindade da Silva Paião, (2ª viagem de 1962) e Asdrúbal José Sacramento Teiga, todos de Ílhavo.
Alguns acontecimentos aziagos fustigaram a carreira marítima do nosso amigo – o primeiro, o esmagamento de dois dos dedos da mão direita, em 1959, num acidente de trabalho, a bordo, e o outro, o próprio naufrágio insólito do navio, a que voltarei.
Recordou-me, várias vezes, nas nossas conversas, o acidente que sofrera, a bordo do arrastão Santa Mafalda, enquanto 3º motorista, que lhe roubara dois dedos da mão direita. Os dois dedos que lhe sobraram intactos (polegar e indicador) ficaram com a força e ligeireza de um perfeito alicate. Episódio esse, imortalizado pela pena de Bernardo Santareno, ao tempo, médico no Gil Eannes, em Nos Mares do Fim do Mundo, de que me transcrevo uns excertos:
Alô! Alô! O «Santa Mafalda» chama urgentemente o médico! Alô! Alô! Médico! Médico!...
Eu estava no «Bissaia Barreto» (…). Foi então, à hora do jantar, que, aflitivamente, este S.O.S. rasgou os ares: o terceiro maquinista do «Mafalda» tinha uma mão esmagada, por acidente de trabalho!
Era preciso intervir e quanto antes.
E os dois navios navegaram ao encontro um do outro.
O enfermeiro, o Lourenço, a voz trémula de emoção, deu-me pela «fonia» mais pormenores: um dos dedos, preso à mão por escasso retalho de pele, estava sem dúvida condenado; e além deste, dois dos outros dedos desta mesma mão, com fracturas múltiplas e expostas, teriam provavelmente a mesma sorte.
Era preciso ver as lesões, mas como chegar ao «Mafalda»? O mar, agora, estava bravo como eu ainda não o vira: varas apocalípticas cruzavam o «Bissaia» em todos os sentidos, o vento levava pelos ares madeiras e cordame, a névoa tornara-se impenetrável. Como? Como passar?! (…)
(…) Era impossível tentar a minha passagem. Ai, o alívio que eu nesse momento senti! (…)
Em todo o caso e sempre pela telefonia, lá fui dando instruções de que me lembrei ao pobre Lourenço.
Era desesperante.
O mar atingira o auge da fúria: rasgava tudo; vencia, com o seu clamor monstruoso, os pobres gritos humanos; lavava, com a espuma claríssima das suas ondas, a sangrenta nuvem daquela hora.
(…) Mas aquele ferido, tão novo, um rapaz… ai, aquela mão! E se fosse possível salvar-lhe os dedos lacerados? Bem bastava o outro, o que já tinha sido amputado (…).
E mandei seguir o «Santa Mafalda» para terra.
Recebi hoje – oito dias sobre este acidente – uma notícia admirável: o terceiro maquinista, apesar da brutalidade das lesões, ficará com os seus dedos!
Tudo valeu a pena: a angústia daquela hora, a raiva humilhante da minha impotência, o suor de sangue e fel do Lourenço, o desespero dinâmico do comandante do «Mafalda».
Valeu a pena, valeu a pena!
Quanto ao naufrágio do Santa Mafalda, o jornal O Ilhavense de 10/2/66 refere-se-lhe:
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À saída da barra de Lisboa, no dia 21 de Janeiro, pelas 11 h e 40, em frente a S. Julião da Barra, numa zona da barra onde o mar obriga às maiores cautelas, pela sua estreiteza, e por ser semeada de rochedos e bancos de areia, ocorreu mais um naufrágio, cujas consequências, entretanto, felizmente, não foram além dos elevados prejuízos materiais.
O mar encapelado, devido ao vento forte que soprava do quadrante sul, tornava perigosa a navegação. No entanto, os navios da frota bacalhoeira do arrasto, como estava previsto, suspendiam e aprestavam-se para seguir, rumo aos bancos de pesca da Terra Nova e Gronelândia, a fim de iniciarem mais uma campanha. Da dezena e meia, destinados a tão espinhosa faina, três iam já de abalada, quando o sinistro foi assinalado.
As águas revoltas da baixa-mar transpunham, espectacularmente, a muralha da estrada marginal. A neblina envolvia o espaço, dando ao Tejo um aspecto sombrio. Manhã de pura invernia. Percorrendo o estreito corredor da barra Norte, de quilómetro e meio de largura, entre o Forte de S. Julião e o Farol do Bugio, deslizava, sofrendo os impulsos da agitação das águas, o arrastão Santa Mafalda, da praça de Aveiro, da EPA.
O Santa Mafalda comandado pelo capitão Asdrúbal Teiga Capote, de Ílhavo, passava em frente de S. Julião, navegando a velocidade reduzida. Batido por rajadas de vento violento, sofre uma avaria de leme, cujo sistema eléctrico leva o navio trancado a estibordo.
O navio sem governo permaneceu à deriva, ao sabor do vento sudoeste e da corrente e foi impelido para perto da margem direita, até que um enorme rochedo localizado a cerca de trezentos metros da Fortaleza, entre as pedras da Torre e de Carcavelos, conhecido por Pedra da Laje, e frente à piscina, o imobilizou e lhe terá produzido um enorme rombo no costado.
Entretanto, não obstante a situação não se afigurar dramática, dada a curta distância que separava o navio da margem, três homens da tripulação do Santa Mafalda tomados de pânico, muniram-se de cintos de salvação e lançaram-se ao mar, vindo a ser recolhidos, com as naturais dificuldades, por uma lancha do vapor dos Pilotos.
Foi, assim, através daquela lancha que continuou a prestar valiosa colaboração que os náufragos foram recolhidos, após se ter conseguido estabelecer um género de cabo de vaivém com o vapor dos Pilotos, que se posicionou a barlavento, e muito próximo do Santa Mafalda. E nestas andanças, que não teriam sido fáceis, apesar da proximidade de terra, se salvou, como os restantes tripulantes, o nosso homem do mar Samuel Corujo.
O mar, após dez dias de fúria violenta, partiu em duas partes o arrastão Santa Mafalda, e por ali acabara por ser desmantelado.
Santa Mafalda encalhado. De Navios à vista
Neste caso, a mudança de navio era mesmo obrigatória e, a partir de 1967, Samuel Corujo, com novo enxoval de bordo, passou para o arrastão Santo André, até 1975, perfazendo 13 campanhas.
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A bordo, em St. John’s, nos anos 70
Este arrastão lateral nasceu em 1948, na Holanda, por encomenda da Empresa de Pesca de Aveiro e dentre os capitães que o comandaram, neste período, foram de Ílhavo, o Capitão Nordeste (1967 a 70), António Trindade G. Paião (1971, 72 e 73, 1ª viagem), e Capitão Ernesto Pinhal (1975).
Arrastão Santo André, em plena pesca
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Em 1976, uma maleita do coração abanou o peito de Samuel Corujo, não mais tendo embarcado. Em 1982, aposentou-se, após uns anos de serviço em terra, na empresa a que pertencia o navio.
Quando visitou o arrastão Santo André como navio-museu, com a Família, emocionou-se ao reconhecer os espaços por onde trabalhou e se movimentou, incluindo o seu próprio camarote. Havia vestígios da sua existência naquele navio… Hoje, como todos sabemos, constitui um pólo do Museu Marítimo de Ílhavo, ancorado junto ao Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré. O armador do navio e a Câmara Municipal de Ílhavo decidiram transformar o velho Santo André em navio-museu, tendo em Agosto de 2001, iniciado um novo ciclo da sua vida: mostrar aos presentes e vindouros como foram as pescarias do arrasto do bacalhau e honrar a memória de todos os seus tripulantes durante meio século de actividade.
Evoluindo aos poucos, na longa carreira, profissionalmente, acabou por chegar a 1º maquinista nas últimas seis campanhas do Santo André, pela boa prestação de serviços e suas qualidades humanas.

E agora, que fazer durante a aposentação, que ainda foi longa? Mesmo depois de alguns trágicos incidentes, as saudades oceânicas atacavam o Sr. Samuel. Prolongou o seu gosto pelo mar e navios, depois de ter aprendido com um familiar mais velho, Capitão Weber Bela, a engarrafá-los artisticamente em garrafas de vidro. Arte própria de marinheiros habilidosos! Motoristas e maquinistas, normalmente hábeis, atiravam-se a esta actividade artesanal, em dias de brisa! Convinha que não fossem muitos!…
Já que moradores na mesma rua, visitávamo-nos com frequência. Ou o ex-maquinista/artista me vinha entregar os seus trabalhos encomendados, o que me dava sempre muita satisfação ou eu visitava-o para observar os «principais passos» do «engarrafamento de mar e veleiros». Entretanto ouvia as suas histórias marítimas, alegrias ou tristezas vividas ao sabor das vagas, durante perto de quarenta anos. A lista de encomendas de veleiros em garrafas era enorme, mas haveria muito possivelmente maneira de a «furar». A falta de sono fazia o nosso homem do mar, em terra, acordar antes do alvorecer e logo se agarrava ao passatempo preferido com muita paciência e minúcia. Os eleitos? Seriam o Gazela Primeiro, com ou sem os minudentes palheiros, o Creoula, o Argus, o Cruz de Malta, o Novos Mares e muitos mais. Eu, claro, além de outros que navegam na casa de praia, mandei fazer o Ana Maria. O segredo está nos mastros… – confessava-me ele, exemplificando.
O segredo está nos mastros…
O nosso motorista serviu alguns navios que, para o bem e para o mal, ficaram na história dos bacalhoeiros portugueses – lugre Patriotismo e arrastão Santa Mafalda pelos naufrágios inéditos sofridos e arrastão Santo André, pela transformação em navio-museu.
Com a forte e bela narrativa de Santareno, ficou Samuel Corujo imortalizado na nossa literatura marítima e com os «seus barquinhos», lembrado nas colecções de miniaturas de veleiros em garrafas, espalhadas por todo o mundo.
No feriado municipal de Ílhavo de 2006, foi homenageado, a título póstumo, pela CMI, com a medalha de mérito cultural de prata.
Ílhavo, 6 de Outubro de 2017
Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Memórias da romaria da Senhora da Saúde

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Os festejos em honra da Nossa Senhora da Saúde, iniciados em 1837, vieram substituir a primitiva Festa de S. Pedro, em Ílhavo (que se tornou na Festa das Companhas), passando a ter data fixa, no último domingo do mês de Setembro.
Competia em popularidade com o S. Paio ou com o S. Tomé, na grandiosidade da animação dos festejos lagunares, no corrupio de gentes e na algazarra. Do norte do Bico ao sul da Mota, a Costa-Nova engalanava-se com o estendal de moliceiros.
Agora, vem aí a romaria…Só que nem dá p’ra te comprar uma flor…
A minha mais antiga recordação deste arraial é uma fotografia, no terraço do meu palheiro, à época, com dois anos e um grande laçarote na cabeça. A armação da festa comprova a data – fins de Setembro de 1946. Vivia no coração da romaria.
Outra memória, bastante mais forte e de que ainda hoje me recordo vivamente, foi a minha integração na procissão, trajada de anjinho – a primeira e a única vez.
Cá perdura o boneco tirado à la minuta no meu baú, como mandava a tradição.
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O anjinho assustado, de sete anos
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Só que foi uma procissão complicada e agitada, porque durante o seu trajecto, deflagrou um forte incêndio na, à época, Pensão Pardal, na esquina norte da Estrada do Banho.
Alterado o percurso, o susto apoderou-se de todos. As chamas lambiam as outras casas e todos temiam que se propagassem às residências vizinhas. Foi um alvoroço.
Lá vieram os Bombeiros de Ílhavo acudir ao sinistro que poderia ter alcançado proporções gigantescas, dado que as casas da proximidade eram palheiros de madeira ressequida.
Na ausência de data na fotografia, lá fiz algumas diligências para situar a ocorrência no ano certo – foi no domingo da Festa de 1951 (in O Ilhavense de 10 de Outubro de 1951).
Naquela idade os meus avós faziam-me as vontadinhas todas e eu lá tinha os meus rituais.
A minha primeira compra era um «chapelinho de papel» muito frágil e gracioso, que habitualmente estava à venda numa tenda, que montava arraial em frente à Vivenda Quinhas, hoje de Jorge Picado.
Quando chegavam à minha porta, a ti Adelaide Ronca com as flores de papel com quadra popular e ventarolas, e a ti Caçoa, com o baú das doçarias tradicionais, entre as quais sobressaíam os melosos e açucarados suspiros e os bolinhos brancos, logo as boas festeiras tinham em mim uma das primeiras freguesas; uma mão para erguer o moinho à procura do vento, até que zunisse, e logo a outra atascada com doçarias para secar a água que me crescia na boca, só de vê-las.
Seguia-se a visita à Vida de Cristo, em movimento, descrita em voz roufenha, rouca do publicitador, tornada ensurdecedora pela ampliação conferida pelas cornetas do altifalante, que tentavam sobrepor-se ao anúncio das cadeiras voadoras ou da casa dos espelhos ou do comboio fantasma, itens do arraial que se iam visitando, vez à vez, até que esgotados  na segunda-feira do fim de festa.
Incluída no programa das visitas, não podia faltar uma ida  às barracas de loiça de Barcelos, para  «puxar» de uma argola presa a um fio, que erguia o número correspondente ao prémio, que calhava em sorte.
Assim ia gozando a festa naquela idade da criancice e inocência.
Os restantes registos fotográficos são bastante mais tardios, de 1960, ano em que as minhas amigas e eu, já espigadotas, no esplendor da nossa juventude, combinámos viver a Senhora da Saúde, à moda antiga. Tinha 16 anos.
Os primeiros sinais da romaria eram dados pela chegada e montagem da armação. Depois, a vinda das primeiras tendas. Mas quando os primeiros moliceiros chegavam do norte e do sul da ria, os norteiros e os matolas e atracavam mesmo aqui pertinho de mim, então a festividade estava próxima.
Experimentámos de tudo um pouco. Depois de um belo passeio de Vouga, estava na hora de começar a reinar: andámos de carrossel, de carrinhos eléctricos, de cadeirinhas voadoras, integrámo-nos nas danças sobre a proa dos moliceiros, subimos aos vistosos e animados coretos, tirámos a sina numa boneca de tecido peludo preto, com uma grande cabeçorra, normalmente em frente do palheiro dos Senhores Moura, hoje da Rosa Maria Moura, apreçámos toda a quinquilharia possível, desde os toscos brinquedos de lata e madeira aos ferros forjados mais elaborados. E o café de apito?
Assistimos respeitosamente ao desfile da procissão, apreciámos o fogo-de-artifício, assustando, conforme podíamos e sabíamos os forasteiros, especados, de olhos pregados no céu.
Foi assim a nossa festa setembrina de 1960, em homenagem à Senhora da Saúde, em que se concentrava grande número de devotos.
As participantes na folia eram Maria Manuela Vilão, Rosa Maria Moura, Eneida Viana e eu.
Hoje, no entanto, apenas com os festejos religiosos, fogo-de-artifício, e umas doçarias festivas, ainda se vai passar à Costa-Nova a Senhora da Saúde. Nem gostamos, sequer, de ver a casa fechada. Tradição… É a que temos. É para respeitar, tentar transmitir…e, se possível, melhorar.
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Debruçados no coreto
 
Sobre as belas proas de moliceiros
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A «ler a sina»
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No «carroussel»
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Imagens – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 21 de Setembro de 2017
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Ana Maria Lopes

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Associação Memória e Património dos Terre Neuvas visita o Museu Marítimo de Ílhavo

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Repetindo a visita que fizera ao Museu Marítimo de Ílhavo, em Março de 2016, esteve, hoje, de novo, presente, no MMI, uma representação da Associação «Mémoire et Patrimoine des Terre Neuvas», uma colectividade sediada em St. Malo, França, que visa preservar a memória e património da pesca do bacalhau na Terra Nova.
O grupo visitante
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Motivo?????????Jean Baptiste Georgelin, no ano de 1959, um jovem pescador francês, tripulante do arrastão Colonel Pleven, acabou por cair ao mar, em pleno Atlântico Norte, em águas geladas de difícil sobrevivência, sem que ninguém o tivesse visto.
Só mais tarde, a restante tripulação terá dado pela sua falta e o aviso ecoara mais tardiamente. O código de emergência foi escutado a bordo do arrastão português Águas Santas, cujo capitão era, na primeira viagem de 1959, o ilhavense Manuel Lourenço Catarino, nascido em Fevereiro de 1900.
O pescador francês não esqueceu os tripulantes portugueses, que, indo ao seu encontro, num bote, lhe salvaram a vida e tinha uma vontade férrea de os vir a conhecer.
Com um deles ainda vivo, natural de S. Jacinto, aqui ao lado, Manuel Joaquim Bola Vieira, visitou-o, hoje de manhã, na sua terra, para lhe transmitir um sentido agradecimento – o seu renascer. O outro, já falecido, natural da Murtosa, Abílio da Silva Rodrigues Brandão, foi representado pelo seu irmão, que também esteve presente.
No MMI, o nosso reencontro com os elementos da referida associação e com Jean Pierre Andrieux e sua esposa, foi extremamente afectuoso, constando de uma visita guiada em francês, para uma compreensão plena, à Sala Faina Maior e Aquário dos Bacalhaus.
Conhecer o sobrevivente, Jean Georgelin, depois de tais chocantes peripécias em bom estado de saúde e muito bem conservado nos seus 75 anos, foi emotivo e comovente.
Jean Georgelin e eu
Alguns exemplares do livro Portugal no Mar e Tributo a Capitães de Ílhavo foram oferecidos a elementos da comitiva e ao pescador «sobrevivente», tendo sido feita uma identificação visual do capitão, à época, do Águas Santas, e dos pescadores salvadores, no livro Portugal no Mar.
 
Por idêntica gentileza, foram-nos oferecidas placas simbólicas do inédito salvamento. Uma tarde agradável.
Ílhavo, 7 de Setembro de 2017
Ana Maria Lopes
 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Amizades geradas na Costa Nova

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Com este tempo outoniço, aproveitá-lo mesmo para limpezas de roupas e papelada. Nestas andanças veio-me à mão um texto de Isabel Maria C. Madail, que arengou, no final de uma apresentação no CVCN, minha e de Etelvina Almeida, Uma viagem p´la ria, em Agosto de 2014.
No final, a Isabel pediu a palavra… Que quereria ela dizer? Nada como dar-lha, para saber:
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Esplanada e embarcações lagunares, na Costa Nova
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Não posso deixar passar este momento sem intervir, prometendo ser breve
A Ana Maria e eu vivemos muito na Costa Nova e a Costa Nova, fomos amigas e às vezes inimigas (ela era endiabrada) toda a vida.
Os nossos familiares vinham para a Costa por Maio, aqui permanecendo até finais de Outubro. Se houvesse obras de vulto a fazer, viriam mais cedo, claro, e a estadia, então, prolongava-se. Daí o tratarmos por Tu esta terra onde nos sentíamos e sentimos bem, onde conhecíamos toda a gente, para onde fugimos para tentar curar as agruras que a vida também nos trouxe, continuando, até hoje, a fazê-lo.
Aqui, a Ana Maria era a «Aninhas» e eu, a «Inzabelinha».
Contudo, a Ana Maria, muito atrevida, decidiu nascer antes de mim, uns escassos três meses, o que lhe deu a vantagem de entrar na Escola um ano antes de mim, muito importante, e eu tive muita pena.
Como ela bem disse, andou cá na Escola na 1ª e 3ª classes, quando da construção da casa onde hoje vive.
Eu que nunca me conformei por ter nascido depois dela, entrei na Escola um ano mais tarde e, assim frequentei a 3ª classe na Costa Nova, enquanto a Ana Maria a tinha frequentado no ano anterior, fazendo exame da 3ª na Gafanha da Encarnação; para isso a travessou a ria, de barca, com a Professora e os colegas, tudo cheio de pompa e circunstância.
Contudo, só por causa do meu atraso em chegar a este mundo, quando, no ano seguinte, pensava que ia fazer exame à Gafanha com o resto da turma, fiquei desiludida: Foi o 1º ano em quês se fizeram exames na Costa – um ponto a favor da Ana Maria que foi de barca.
O centro do «mundo» – a Costa Nova
Claro que eu, ao longo dos tempos atravessei a ria com enterros, que eram também fluviais: o caixão e acompanhamento iam na barca, para a outra margem, mas, não sendo a viagem privativa, iam também outras pessoas, cujo único meio de transporte era aquele.
Mas, voltando à Ana Maria que na Costa Nova era Aninhas: um dia estávamos ao colo das nossas Mães e, sem quê nem para porquê, eis que ela se lembra de me dar uma valente bofetada
Quando fazia qualquer asneirita, como eu ou qualquer outra criança, o Capitão Pisco, seu Avô, de saudosa memória, dizia-lhe que eu é que ia passar a ser a neta  dele e aí aparecia ela, pior que estragada, como se eu tivesse culpa.
Mas éramos muito evoluídas: o Avô pagava uma barraca na Biarritz para nós nos vestirmos após o banho da ria. Muito fino… teríamos 7 /8 anos
Além de tudo, foi a Costa Nova que mais nos ligou: fazíamos campeonatos do jogo do prego, de ringue… Temos sido próximas desde sempre. Matriculámo-nos no mesmo curso, eu um ano depois, claro, por causa dos tais três meses…
A Ana Maria era mais azougada do que eu no que respeita ao mar: muito nadadora, muito despachada…
Perdoem o tempo que vos roubei, para vos contar como se formavam amizades nestes areais.
A nossa Costa, a Costa da nossa infância, onde passávamos meio ano, deixou-nos marcas profundas, que fazem com que, embora tendo visto muito lugares bonitos, continuemos apaixonadas por ela. E a Ana Maria fá-lo de forma mais notória, mais interveniente, e muito bem. Por isso a felicito!
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Pela beira da ria…1960
Não lhe posso perdoar que se tenha adiantado a mim, que nasci apenas três meses mais tarde, o que lhe dava um ar muito importante, já que andou sempre mais adiantada do que eu.
Isabel Maria C. Madaíl
CVCN, Agosto de 2014
AML
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sábado, 19 de agosto de 2017

Homens do Mar - José Duarte Oliveira - 35

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José Duarte Oliveira
Já pouco ou nada escrevinho, já pouco ou nada pesquiso, mas não deixo passar em vão nenhum episódio da Faina Maior a que vá tendo acesso. Alimenta-me a alma, mesmo no seu negrume doloroso.
Encontrei, em meados de Maio, Noémia Ribau, no Museu, para mim, pessoa desconhecida.
Mas, alguma empatia brotou entre nós que nos levou ao diálogo. A Noémia – afável, agradável, simpática, de 70 anos, pele lisa e cuidada, olhos azuis cristalinos e transparentes, da cor do mar, cabelo encaracolado, farto e branco puro, tipo espuma de vaga na rebentação – parece que tinha alguma mensagem para me passar. E tinha.
Revelou-me com uma dor ultrapassada, mas ainda não esquecida, que o pai, «pescador-especial», morrera no mar, no pesqueiro, tendo desaparecido para sempre, ele, o bote, o bacalhau apanhado, em segundos: na campanha de 1952, enquanto contramestre do lugre-motor Dom Denis, pertença da empresa Pascoal & Filhos, Lda. Tinha algumas fotografias (aguçou-se-me o interesse) e recordava tão forte e vivamente o dia da chegada da notícia, mesmo nos seus 5 aninhos, que era capaz de pintar um quadro das empolgantes e tristes cenas, que vivera e a que assistira.
Uma criança, com duas irmãs mais velhas, marcada sobretudo pelo desgosto de sua mãe, que acompanhou toda a vida, embiocada em roupas negras como negra não mais deixou de ser a sua alma. Conversarmos mais – era o nosso objectivo –, mas naquele dia e àquela hora, não era oportuno.
Vim para casa, e na minha curiosidade natural, interrogava-me:
– Como se chamaria o pai, nome completo? Nascido onde?
– Idade? Cédula marítima de que data?
– Quem teria sido o capitão do navio Dom Denis, nesse ano, que teria passado pelo desgosto de perder um homem bom, um bom pescador, um homem novo e pai de crianças, deixando uma jovem mulher, viúva?
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Procurei estes elementos junto da sua ficha de inscrição no Grémio e das fichas biográficas complementares. José Duarte Oliveira, de alcunha Zé Pinto, nasceu na Gafanha da Nazaré, a 2 de Setembro de 1913. Casou com Palmira Janicas Martins em 10 de Janeiro de 1936, sendo possuidor da cédula marítima nº 19.907, passada pela Capitania do Porto de Aveiro, em 3 de Abril de 1927.
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A bordo, em pé, de camisa clara, junto à pilha de botes
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Tendo começado cedo a vida marítima como moço, de 1936 a 1940, inclusive, foi um óptimo pescador no lugre com motor Rainha Santa Izabel, tendo mudado de 1941, até à fatídica campanha de 1952, para o lugre Dom Denis, em que foi sempre pescador especial e, contramestre, nos anos de 45, 49, 51 e 52. «Partiu para o fundo do mar florido», sem retorno, em Agosto de 1952, com 38 anos.
O capitão fora, nesse ano, João Fernandes Parracho (o Vitorino), que bem conheci, ali da Rua Direita.
Um mês depois, numa terça-feira, a Noémia voltou a procurar-me, para conversarmos mais demoradamente, tendo-me trazido algumas fotos do pai, que estavam danificadas na sua maioria pelo bolor do tempo, com excepção de uma, pequenina, que tinha vestígios de ter andado colada, no interior da amura do navio, junto ao beliche do pai, como era hábito – ele e a sua Palmira.
Escolhi as possíveis.
A Noémia continuou com as suas naturais lamúrias, contando-me que pela Senhora do Pranto, tinham vindo até à festa, a Ílhavo, onde já constava o acidente fatal do pai, embora ninguém tivesse coragem de lhes dar a trágica notícia. Davam-se muito bem com a senhora do capitão, mas…
De dia em dia, o tempo foi passando e familiares e amigos, na Gafanha d’Aquém, sentiam-se na obrigação de dar a conhecer à família, tão terrível notícia. E assim aconteceu. Já todos em redor, por fins de Agosto, estavam preparados para consolar, amparar e animar, se é que há ânimo possível, nessas condições…
Tum! Tum! Tum! – bate à porta um tal João dos Bois.
– Abra a porta que o seu home morreu afogado nas ondas do mar! – Ecoou…
A Palmira, incrédula, gritara, caíra, desmaiara. Foi-lhe prestada a assistência possível pelo Sr. Dr. Balseiro (pai). Durante quase um mês, a recém-viúva de um homem perdido no mar, não vivera, vegetara, semiadormecida, tendo perdido a fala. Tinha três meninas do seu rico Zé Pinto, para criar. E assim o foi fazendo, à custa do seu trabalho, ajudas e amor, numa mágoa infindável, mas com uma força anímica que sempre vai tendo uma mãe, mesmo viúva.
Outro episódio chocante, ainda em pleno luto – recordou a Noémia – foi a entrega dos sacos de lona com as roupas de bordo e da tal fotografia do casal, que, na amura do navio, alimentava o seu sonho de amor. Na altura em que o navio entrou a barra e atracou no cais da Gafanha, a quem entregar aquelas sobras doridas?
Outra tormenta – o contacto físico com cada peça de «roipa do seu home» que ela beijocara, numa dor sem fim! Para não falar na dita fotografia pequenina e carinhosa, que ainda hoje existe e é testemunho de tão grande amor e de tão grande perda…
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Na amura interior do Dom Denis, junto ao beliche
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Falou-me a Noémia dos alvos cabelos encaracolados e de olhos de um azul cristalino, como o mar, que Bernardo Santareno, não sabia em que livro, narrara um sonho, que só podia ser premonitório. Não me era estranho, e de volta a casa, agansei-me aos Mares do Fim de Mundo, em que, rapidamente, localizei o belíssimo texto de Santareno, que passo a memorar: – O Sonho
Corria pelo fundo do mar, perfeitamente livre, como que alado, respirando sem qualquer esforço: apanhava flores lindíssimas, jamais admiradas antes, e escolhia conchas, azuis ou róseas, de formas encantadoramente bizarras. Sentia-se leve e feliz.
E quando, por acaso, se mirou numa estrela de oiro que, cadente, lhe passava em face do rosto, ficou estupefacto: era muito mais jovem, agora.
(…) A certa altura, porém, lembrou-se dos filhos pequeninos e quis levar-lhes as flores e as conchas: tentou por isso voltar à superfície. Em vão: sempre que experimentara nadar para terra, o mar tornava-se duro e impenetrável. Angustiado, repetiu a tentativa uma, duas… cem vezes: impossível. (…) Queria chorar, mas só podia rir. Foi neste momento, no auge da angústia, que o vigia o veio acordar…
Que sonho mais esquisito! Credo! Deus nos livre das tentações do demónio. Sempre há cada uma. (…). E logo foi contar ao Francisco Urze, seu mais íntimo amigo. Foi este último quem agora mo reproduziu. Oh, que alívio ao acordar… Livra! Mentiras, sonhos são mentiras.
Vestiu-se. Madrugada. Estava um dia sereno e belo, um mar doce e sem rugas, logo palhetado por preciosos cristais solares. Nem vento, nem nevoeiro, Gronelândia, no «Store».
Tempo ideal para a pesca à linha!
Arriados os botes (mais de cinquenta!), os pescadores lá foram para a faina, cada qual remando para o pesqueiro preferido, todos eles, no entanto, perto do navio-mãe, o lugre Dom Denis. À vista, muito próxima, a costa nevada.
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Dom Denis

E o Zé Pinto (chamava-se assim o homem do sonho) foi também, claro, com os demais. Era o contramestre do navio: marinheiro sabedor e prudente.
Cerca de uma hora depois da partida, houve ainda quem visse o seu dóri, já longe, reconhecendo-o pelo verde-malva da minúscula vela.
Depois… nunca mais.
Pela tarde, fora içada no Dom Denis a bandeira da chamada, todos, uns após os outros, foram regressando ao navio-mãe.
Todos, menos o contramestre.
Que lhe teria acontecido? Não há testemunhas, ninguém pode verdadeiramente explicar esta desgraça. O tempo continuava esplêndido, o mar mais plano que nunca, o céu azul e limpo, o vento apenas suave.
Então, o Dom Denis navegou em busca do homem, por todas as direcções; lançou, pela telefonia, apelos aos outros navios portugueses e estrangeiros; fez, desesperadamente, todos os sinais de chamada… Tudo inútil: o Zé Pinto desaparecera para sempre.
Mas, como?! Estranho naufrágio, este!
Que se teria passado, santo Deus?! Ninguém sabia. Com um mar assim, bom e ameno, nunca tal acontecera: não havia memória. Foi como se o barco e o homem, num instante, se tivessem feito em fumo e brisa; ou em música (…).
Ai, aquele sonho!... O Francisco Urze, dolorosamente não se cansa de murmurar: Era o aviso, era o anúncio! E eu penso também que sim, que seria: a morte tinha escolhido o Zé Pinto enquanto ele dormia: ficara marcado, não lhe podia fugir. Ela é implacável, não perdoa nem adia – com bom ou mau tempo, com névoa ou com sol, o jovem contramestre do Dom Denis, naquele dia, àquela hora, iria ouvir a música do fundo do mar, colher as suas flores maravilhosas, apanhar as suas conchas belíssimas…
Trinta anos volvidos, a sua filha Noémia encontrara o Chico Ramos, contramestre do lugre Brites, em Ílhavo, que lhe confessara que, ao longe, assistira ao afundamento do seu pai… mar chão, tempo límpido, mas aquela ganância de carregar mais o bote levara-o à morte, por submersão com o peso de mais uns belos peixes. Estava a dar!.... Terá sido? Faço minhas as suas palavras que dão que pensar.
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Fotos cedidas pela filha de José Duarte Oliveira
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Ílhavo, 14 de Agosto de 2017
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Ana Maria Lopes
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sábado, 12 de agosto de 2017

Tributo a Capitães de Ílhavo


Prefácio
 
Este Tributo a Capitães de Ílhavo, de autoria de Ana Maria Lopes, não poderia ser dado à estampa e oferecido à comunidade ilhavense em melhor momento. No dia em que o Museu Marítimo de Ílhavo comemora os seus oitenta anos de vida, este livro generoso e quente, tecido delicadamente sobre memórias de família dos admiráveis Capitães de Ílhavo, constitui um presente emoldurado, um diálogo de gerações para dar corpo e espírito à memória futura.
Não escrever este livro seria muito mais cómodo. Mas não foi essa a decisão de Ana Maria Lopes, que aceitou de pronto o desafio que lhe lancei quando soube das notas biográficas que vinha alinhando para publicação informal no seu blogue.
O património e as dívidas da memória comportam uma dimensão ética que pede a generosidade do risco e o desassombro da partilha. Daí a importância deste livro e da iniciativa homónima que o Museu imaginou neste seu ano jubilar em que o território, a identidade local e os seus protagonistas se invocam sem freios. Bem sabem os leitores deste livro, quanto o Museu Marítimo de Ílhavo tem procurado pluralizar memórias e abrir o jogo das identidades a todos os protagonistas humanos da Faina Maior.
Esta herança cultural lendária faz-se de múltiplos heróis humanos, da proa à popa. Prestar tributo aos Capitães de Ílhavo significa reconhecer uma elite local cuja fama correu o país e o mundo e significa fazê-lo de maneira aberta e inclusiva, com os Capitães e os Pescadores, em companha. Basta lembrar que no mesmo ano em que promove esta iniciativa e a presente edição, o Museu Marítimo de Ílhavo editou o livro Portugal no Mar – Homens que foram ao Bacalhau e apresenta ao público um extraordinário portal, Homens e Navios do Bacalhau, quase um museu virtual.
«Tributo a Capitães» e não «aos Capitães», assim o quis intitular Ana Maria Lopes, sabiamente, evitando presunções e a ciclópica ideia de biografar todos os Capitães ilhavenses. Trata-se assim de um tributo profundamente humano, da invocação de uma parte significativa dos Capitães de Ílhavo. Trata-se de uma parte que fala e vale pelo todo, de uma amostra que representa um universo.
Aqui se reúnem trinta breves biografias de Capitães ilhavenses já desaparecidos, conjugando palavras certas e belíssimas imagens, muitas delas inéditas porque residiam algures em silêncio. As biografias privilegiam o currículo marítimo dos oficiais e as principais peripécias dos navios que governaram. Homens houve que naufragaram três vezes. Muitos já eram filhos e netos de oficiais da Marinha mercante. A esses detalhes narrativos, fios de água que levam ao mar, aditou-lhes a autora preciosas notas humanas, traços de vida e testemunhos de família que não deixarão de interpelar outras memórias quando estas páginas forem dissecadas emotivamente.
Os Capitães de Ílhavo são homens de mar, admiráveis marinheiros, nautas por treino e vocação. Mesmo quando comandaram navios nunca deixaram de ser pescadores, continuidades que devem ser lembradas e valorizadas.
A diversidade de biografias que se encontram neste livro permite-nos confirmar que, se lhes chamarmos «Lobos do Mar» ou algo semelhante, não estaremos a exagerar nem a replicar os arroubos da propaganda do Estado Novo. Quando Alan Villiers lhes chamou «os melhores navegadores do mundo», na célebre Campanha do Argus (1951) e num texto que a seguir publicou na revista National Geographic, não exagerou mais do que viu, quotidianamente, nos mares do Norte. Mas fica claro que essas expressões mitificadoras tendem a tipificar estas figuras humanas; salientam os seus traços comuns como se um molde humano lhes tivesse esculpido o carácter e as habilidades náuticas. Um dia, partindo deste livro, será necessário empreender uma prosopografia dos Capitães de Ílhavo. Imagino uma biografia colectiva, de um grupo ou de uma elite dotada de traços comuns, mas de percursos e idiossincrasias singulares. A ideia é dura, mas fecunda.
Quero manifestar a minha alegria por escrever o prefácio deste saboroso livro, agradecer o desafio à Dr.ª Ana Maria Lopes e o entusiasmo dos Amigos do Museu. E devo assinalar, em briosa defesa do nosso Museu, que neste livro os créditos fotográficos encontram-se judiciosamente indicados e as fontes de arquivo que o Museu tem o privilégio de preservar também são devidamente referidas. Aparelhar este navio e fazer esta viagem só augura novas campanhas e maiores empreendimentos. Afinal, o património é tão somente o presente das coisas passadas. Um assunto infinitamente humano.
Álvaro Garrido
Professor da Universidade de Coimbra. Consultor do Museu Marítimo de Ílhavo
Ílhavo, 8 de Agosto de 2017
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AML
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terça-feira, 27 de junho de 2017

Homens do Mar - José Pelicas Gonçalves Bilelo - 34

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Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo
Aqui pelas vizinhanças, pelos conhecimentos e pelas genealogias marítimas, tão habituais em Ílhavo, tinha que parar por ali, na Rua de Camões, nº 87 – falo de José Pelicas Gonçalves Bilelo.
O Sr. Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo (1920-2000), nasceu em Ílhavo em 19 de Fevereiro de 1920.
Filho de Aquiles Gonçalves Bilelo (1887-1962), que já lembrei a seu tempo, e de Maria Rosa Pelicas, teve, do casamento com a Senhora D. Maria Manuela da Cruz Bixirão, muito amiga de minha mãe, três filhos – José Alberto, Vasco Manuel e Maria do Rosário Bixirão Gonçalves Bilelo. O primeiro foi oficial da Marinha Mercante, o Vasco foi meu aluno e com a Maria do Rosário, mantenho uma relação cordial.
Acabou o Curso de Pilotagem da Escola Náutica em 1942, tendo obtido a cédula de inscrição marítima nº 23945, passada pela capitania do porto de Aveiro, em 23 de Dezembro de 1942.
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 Possivelmente, a bordo do José Alberto. Anos 40

Dados credíveis permitem-me afiançar que nos anos de 1943 e 44 foi piloto do lugre-motor José Alberto, sendo capitão seu cunhado José Vaz Mano e imediato, Manuel dos Santos Malaquias. Como já referi, o José Alberto, ex-Caroline foi construído na Dinamarca, em 1932, tendo sido adquirido pela Sociedade de Pescas Oceano, Ld.ª, da Figueira da Foz, para a campanha de 1935. Tinha uma silhueta que o distinguia de todos os navios da nossa frota.

 O José Alberto, no início dos anos 60. F. Baier

Em 1945, foi imediato do navio Portucale, do comércio, sendo o capitão, o seu sogro, José da Cruz Bixirão. Desembarcou no ano anterior ao trágico naufrágio do navio, em 1946.

Ainda, piloto, a bordo…

Agora, começa a dança dos arrastões, que se torna bastante mais difícil de cotejar, pelo facto de poderem fazer duas viagens, podendo a oficialidade não se manter de uma para a outra.
 
Na safra de 1946, cumpriu o cargo de piloto no arrastão da EPA Santa Joana, 2 viagens, sob o comando do Capitão Francisco dos Santos Càlão, na primeira, e Capitão José Pereira da Bela, na segunda. O imediato era João Laruncho de São Marcos.
Na de 1947, igualmente no arrastão Santa Joana, também com 2 viagens, a oficialidade manteve-se, incluindo o capitão, que foi José Pereira da Bela.
 
Na campanha de 1948, também de 2 viagens, exerceu a função de piloto, na 1ª viagem e de imediato, na 2ª, mas, então, do arrastão Santa Princesa. O capitão da 1ª viagem foi António Trindade da Silva Paião e o da 2ª, o Capitão Manuel Inácio Gaia, da Figueira da Foz. O imediato da primeira foi José da Silva Rocha e o piloto da 2ª, Weber Manuel Marques Bela.
Na campanha de 1949, de uma só viagem, continuou a ser imediato do mesmo arrastão, igualmente sob o comando de Manuel Inácio Gaia, pilotado por Weber Manuel Marques Bela, de Ílhavo.
O arrastão Santa Princesa foi construído de aço, nos estaleiros Cox & Cª. (engineers), Lda., Falmouth, Inglaterra, em 1930, com o nome de Sptitzberg, tendo sido comprado pela EPA, em 1939, que o rebaptizou de Santa Princesa.
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O arrastão Santa Princesa, à entrada de Leixões. Fotomar

Durante as safras do 1950 e 51, estreou-se como capitão do esbelto lugre-motor Brites, da praça de Aveiro, levando como imediato, Artur de Oliveira da Velha. Nada de expectante, e a vida continua no mar, com curtas estadias em terra.

De 1952 a 1961, foi para a praça de Viana, substituir o pai, Capitão Aquiles Gonçalves Bilelo, que se aposentara, após o términus da campanha de 51, como capitão do navio-motor São Ruy.
É natural que tenha tido e teve, alguns imediatos e pilotos de Viana do Castelo e das redondezas, mas, Ílhavo também esteve presente com outros – Francisco Manuel de Oliveira Leite, piloto em 52 e 54 e imediato em 53, Orlando Brandão Vidal, piloto em 1954 e Alberto Marques Pauseiro, imediato de 57 a 60.
 
O navio-motor São Ruy

De 1962 a 1972, onze campanhas, foi capitão do arrastão Rio Lima, não tendo feito a segunda viagem, nos anos de 1965, 67 e 1972.
Durante este período, foram seus imediatos José Manuel Redondo Malaquias e Manuel Ângelo Nunes Correia, de Ílhavo.
O arrastão Rio Lima fora proveniente do navio-motor, de ferro, com o mesmo nome, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1952 para a Empresa de Pesca de Viana, que foi transformado em arrastão clássico, após a campanha de 1961.

O Rio Lima fundeado em Lisboa, na Junqueira. Foto de LMC

Nas campanhas de 1973 a 1976, comandou o arrastão também lateral Senhora das Candeias, tendo tido como imediatos José Ferreira da Costa Rocha, de Monserrate e António Fernando Paroleiro Santos, de Ílhavo.
O Senhora das Candeias foi arrastão lateral, de origem, mandado construir nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo em 1948, por ordem da EPV.
Ainda em 1976, ficou como Capitão Chefe da Empresa de Pesca de Viana, tendo-se aposentado em 1979, após cerca de 36 anos de mar intenso.
Passou, junto da família, ainda alguns aninhos, que poderiam ter sido bem mais calmos, se não tivesse exercido o cargo de Presidente da Câmara entre 1980 e 82.
Deixou-nos a 15 de Janeiro de 2000, com 79 anos de idade, depois de não ter resistido à falta da esposa, desaparecida, há pouco menos de um mês.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 19 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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